Capítulo 28
Ele entrou rapidamente numa casa sem pintura, próxima dali, bem perto do Terminal Turístico. Já havia um grupo de rapazes na frente, um deles fumava sentado em sua moto, capacete no braço e mochila escolar nas costas. Motocicleta é o veículo preferido no varejo das drogas, além dos assaltos, pela facilidade de fuga em caso de aproximação policial. Tive a impressão de que pelo menos dois tinham algo na cintura, sob a camiseta. Dava para ver o volume. Mas eu não poderia afirmar que eram armas.
Eu olhava ao redor como se observasse o lugar. Tirava fotos com o celular e fazia anotações na caderneta. Um carroceiro veterano, a pele curtida do sol, descarregava fardos de papelão. Parei ao lado dele e puxei assunto, assim poderia observar melhor a casa onde o menino entrara.
- Meio largado o negócio por aqui, hein, seu?
- Ô.
- Faz tempo que tá assim?
- Olha. Acho que sempre teve.
- O senhor mora aqui?
Ele parou o que fazia, limpou o suor da testa e da boca com os pulsos e me encarou.
- Tô precisando duns trocados.
Eu me aproximei e sussurrei no seu ouvido, a ponto de sentir todo o seu perfume de cachaça, sujeira e suor.
- Se me disser onde posso conseguir um baseadinho pra relaxar, te dou dez pilas.
Ele apontou a casa onde estavam os rapazes.
- Ali mesmo. Acho que tem, o negócio deles mesmo é pedra.
Dei o dinheiro. Ele pegou feito criança, largou tudo e se mandou para um boteco de reboco descascado, letreiro vermelho pintado à mão na parede. Nem agradeceu.
Meu amiguinho saiu de dentro da casa. Parecia bem mais atordoado do que antes. É certo que o obrigaram a fumar pedra lá dentro da casa, para não correr o risco de ser pego na rua por polícia, estratégia cada vez mais comuns entre boqueiros. Quando chegou perto do portão, para sair, um dos sujeitos que estava na calçada entrou e o agarrou pelo braço. Enfiou o dedo indicador com raiva no rosto dele e claramente fez uma série de ameaças, antes de empurrá-lo para a rua. O filho do Seu Alfredo cambaleou, caiu, levou um chute de outro rapaz e seguiu numa corrida tresloucada em direção à orla.
Acompanhei com o olhar e só apressei o passo quando tive certeza que não me viam mais. Ele teria chance de estabelecer uma bela vantagem, mas, no estado em que se encontrava, era certo que não iria longe. Encontrei o menino caído entre as dunas, inerte.
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Amanhã, não perca o capítulo 29 de…

