Oscar Bessi

Leão entre as dunas 29

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Capítulo 29

 

Eu me aproximei dele pelas costas, com cautela. Não queria assustá-lo. Era óbvio que não estava em condições normais e eu temia perder minha primeira pista antes mesmo de nascer.

- Ei, menino! - chamei, caprichando no tom amistoso.

Não houve resposta, nem qualquer reação, e só então percebi que ele estava totalmente inerte. Como se tivesse parado ali e desmaiado. Dei uma cutucada com o pé, para ver se ele se mexia. Nada. Eu me agachei ao seu lado e sacudi o corpo do rapaz. Veio um fedor de feridas e falta de banho, típico de zumbis do crack. Como é que Seu Alfredo não percebia? Segurei o seu braço, gritei para que acordasse, balancei seu corpo com violência. Eu já estava ficando nervoso. Só o que me faltava era ter que lidar com um morto na beira da praia.

Peguei o meu celular e espiei se havia sinal. Dois riscos de antena. Que virava três, depois virava um, até sumir para depois voltar. A telefonia brasileira é algo mágico. Já ia discar o 190 quando desisti. O que eu iria dizer? Que era um veranista de calças compridas, passeando pela miséria do Terminal Turístico que, do nada, encontrou um morto? Teria que acompanhar o pessoal até a delegacia e isto era algo que, definitivamente, eu não pretendia.

Guardei o telefone e resolvi dar uma bofetada no rosto do garoto. Ele reagiu, finalmente. Revirou os olhos, gemeu, fez alguns movimentos desconexos com os braços e pernas. Estava fora de órbita, total.

- Como é o seu nome?

Ele balbuciou algo. Fez novos gestos desordenados e fechou os olhos outra vez. Permitiu que o corpo caísse mais na areia.

- Ei, rapaz! Eu preciso conversar contigo!

Um terço de olhar se abriu e mais nada. Apertei o braço dele com força e voltei a sacudir o seu corpo.

- Preciso pegar de volta o notebook que você roubou. Tá me entendendo?

Ele arregalou o olho. E, numa agilidade tão surpreendente quanto bizarra, saiu correndo pelas dunas. Fui atrás.

Odeio correr. Não que eu seja um homem totalmente sedentário, mas também não faço o tipo apaixonado por esportes. Ainda mais corrida. Mesmo assim, consegui alcançá-lo. Rolamos pela areia e algo me cortou o braço. Um espinho, um galho, uma lata de refrigerante, não vi. Não deu tempo. Ele enfiou dois dedos escurecidos de sujeira no meu nariz, depois na minha boca. Que porcaria! Tive que lhe dar um soco.

Ele gemeu alto. E toda a força, nascida na loucura da pedra, se esvaiu de repente. Ele se dobrou sobre o abdômen e passou a chorar. Só falava, entre cascatas de lágrimas e babas, que não queria ir preso.

É, ele pensava que eu era policial e decidi tirar proveito.

- Entrega o note. E te livro da cana.

Ele levantou os olhos e me encarou, ou o mais perto disso que conseguia fazer naquele momento. Baixou a cabeça, olhou o mar, o céu, mexeu na areia. Passou a mão onde eu havia lhe acertado com os nós dos meus dedos.

- Tá. Eu dou. - gemeu.

 

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Amanhã, não perca o capítulo 30 de…