Oscar Bessi

Leão entre as dunas 30

* Perdeu o capítulo anterior? Clique aqui 

Capítulo 30
Mandei que fôssemos naquele mesmo instante buscar o notebook. Ele pensou um pouco, olhou para os lados, para mim e concordou. Apontou com o nariz a direção para onde deveríamos caminhar e reclamou que eu apertava demais o seu braço. Soltei. Não sem avisar que, qualquer gracinha que fizesse, eu o encheria de chumbo. Blefar é uma arte.

Foi muito rápido o que aconteceu em seguida. Um pensamento repentino me veio, algo estava errado. Aquele garoto estava mentindo. Se ele tivesse mesmo trocado o notebook por pedras de crack, não aceitaria voltar lá na boca, com um policial a tiracolo, e pedir o computador de volta como quem troca parafusos na ferragem. Não assim, numa boa, como se fosse o mais natural do mundo. E o medo? E a prática comum, nas bocas, de se pagar resgate pelo que era seu e foi roubado?

Fui fazer um gesto para pegar seu braço de volta, pois queria lhe fazer novas perguntas, quando ele se abaixou, jogou areia nos meus olhos e saiu correndo na direção oposta à praia. Veloz como uma lebre. Nem parecia que, há poucos instantes, estava desmaiado entre as dunas. Demorei para me recompor e fui atrás.

O problema é que ele era leve, jovem e estava doido. Aumentou a distância já nos primeiros metros. Lamentei não seguir os conselhos do meu irmão, que é delegado de polícia e corre todos os dias, até Ipanema. Correr me cansa só de pensar. Mas não sou obeso, o que já é um ganho. E não poderia perder para um guri drogado. Três quadras depois, porém, eu não conseguia diminuir a distância. Ele olhou para trás. E acho até que sorriu, o debochado.

Isto foi dois segundos antes do seu corpo ingressar, numa dança tão repentina quanto desarticulada e macabra, entre as rodas de um caminhão.

Ele nem viu. Nem percebeu.

Gritos na rua. O caminhão freou. Eu parei onde estava, uma vertigem já me nublando a vista. Vi o seu corpo esmagado no chão. O sangue, os pedaços de carne, as vísceras, os membros dobrados e revirados daquela forma impossível que só a morte permite. Curiosos sacaram seus celulares para registrar o bizarro, entre comentários de assombro e humor negro. Dei meia volta. Percorri outra vez o trecho onde recém correra, agora no sentido contrário e em passos lentos e atormentados. Sentei entre as dunas. Vomitei.

Talvez eu tenha ficado uma hora, ali, parado, olhando o mar. Ou muito mais. Só me dei conta quando o sol castigou minha pele além do suportável. Eu pensava na alegria cega, por ingenuidade ou esperança, do Seu Alfredo com o garoto. No chimarrão que ele ofereceu, gentil, ao desconhecido que provocaria a morte do seu filho. Tive vontade de voltar para Porto Alegre e devolver a grana do Ladislau. Nenhum notebook, fortuna ou segredo neste mundo vale a vida de um menino.

Bela porcaria, eu fiz.

Ouvi as sirenes, o silêncio, vozes, sirenes outra vez. Ouvi a brisa. As ondas. O riso de quem seguia sua vida sem se importar com a morte ao seu lado.

Tudo bem, eu tinha algo a fazer. E agora era mais do que apenas o caso de um detetive particular. Traficantes abasteciam jovens, mergulhados em suas tristezas e mesmices feito aquele garoto, com pedras de crack, matando-os aos poucos em nome dos seus lucros. Foi a pedra que levou o filho do Seu Alfredo. Os seus negociantes. E eles pagariam caro por isto.

Peguei o celular, caminhei até onde tinha sinal e liguei para o meu irmão.

Sim. Mesmo sem o distintivo, eu seria policial outra vez.

* * *

E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br

Segunda-feira, não perca o capítulo 31 de…