Oscar Bessi

Leão entre as dunas 31

* Perdeu o capítulo anterior? Clique aqui 

Capítulo 31

 

Júlio me atendeu apenas na terceira ligação e com uma voz de quem estava dormindo. Perguntou onde eu andava.

- Na praia. - respondi - Tramandaí.

Ele riu e brincou que tinha inveja dessa minha vida de vagabundo. Eu olhei o mar e respirei fundo, antes de continuar, pois tive um desejo tão rápido quanto intenso de mandá-lo bem longe. A inveja sempre foi um problema entre nós dois. Júlio, na verdade, não era meu irmão. Era primo. Foi criado lá em casa desde muito cedo, após perder os pais num acidente de trânsito. Enfim. Temos problemas, nossa história era complicada. Mas de um jeito atravessado nos entendíamos, no final das contas.

- Preciso um favor.

- Já? O ano mal começou.

- O vagabundo aqui não parou de trabalhar.

- Sei. E eu estava de folia, no meu plantão. Passei uma noite feliz, fazendo flagrantes de bêbados, drogados, desordeiros, assaltantes e assassinos. Estou relax.

- Não queria te incomodar, mas é urgente.

- Sempre me incomoda. Manda.

- Preciso dados de traficantes de crack em Tramandaí.

- Ué. Tá nessa, agora? Barris de chope não te satisfazem mais?

- É um caso que estou investigando.

- Ora, ora. Quer ser polícia de novo?

- Quando a polícia finge que não vê, eu entro em cena.

Ele me xingou bastante antes de perguntar, afinal, que tipos de dados eu precisava.

- Tudo o que puder. Pontos de vendas, distribuição, etc. Principalmente receptadores de furtos e roubos.

- Quer pouco, hein.

- Ah, se houver um contato confiável por aqui, para que eu procure, te agradeço. Pode ser civil ou PM. É que também quero saber mais sobre um tal Ladislau e Sara Ana, ou Ana Sara.

- Quem são esses?

- Eles me contrataram.

- Ah. Sempre trabalhando para quem não conhece.

- Eu pesquiso a vida de quem me contrata. Só que tomei um prejuízo no final do ano e não deu tempo de pensar muito. Tive que aceitar o serviço.

- Que serviço?

- Achar um notebook.

- Entendi. Acha que algum ladrãozinho levou e trocou por pedra?

- É provável.

- E teu assistente, o bigodudo?

- Tá em casa. Com a sogra.

- Coitado.

Perdi a paciência e perguntei se ele iria ou não me ajudar. Júlio disse que agora não teria como, estava com a namorada, era a sua folga e não tinha acesso ao banco de dados em casa. Ele não misturava as coisas e eu sabia disso. Mas prometeu me ligar ma manhã seguinte, assim que chegasse à delegacia e fizesse alguns contatos.

- Vê se não vai fazer merda aí.

- Vá te catar!

Desliguei. Passos lentos, refiz o caminho e voltei ao lugar onde deduzi que o menino fora mesmo pegar a sua pedra de crack. Havia mais rapazes na calçada, desta vez. Todos agitados, gesticulando muito. Talvez conversando sobre o atropelamento. Vi um boteco quase em frente, estrutura bem pobre, ao lado de uma casa abandonada cujo pátio se transformara em depósito de lixo. Escolhi uma das poucas mesas metálicas brancas postas do lado de fora, com o logotipo da cerveja quase invisível sob a ferrugem, e me sentei. Dava para ver bem o movimento da casa e quase ouvir o que diziam. Olhando para o lado oposto, eu via o famigerado Terminal Turístico.

- E aí, mano? O que vai?

Olhei para o lado e quase bati com o nariz na coxa tatuada de uma morena de corpo perfeito, roupas minúsculas e um incrível perfume de maçã verde.

* * *

E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br

Amanhã, não perca o capítulo 32 de…