Oscar Bessi

Leão entre as dunas - 4

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Capítulo 4

 

- Doutor Leão?

O quepe do sujeito lembrava um maquinista de filme antigo.

- Oi. - respondi, preparado para o pior. Ou não. Na minha frente, via apenas um senhor grisalho de roupa esquisita, gestos comedidos e olhar distante. Ele enfiou a mão direita no bolso do casaco azul com botões dourados e os meus músculos se retesaram. Esperei por outra pistola preta e fosca. Ou algum revólver com cabo de madrepérola.

- Dona Bruna pediu que lhe entregasse.

Ele me ofereceu um papelzinho com um celular anotado. Bruna? Ele percebeu o meu espanto e explicou que, como eu havia esquecido de anotar, ela ditou o número pelo telefone da recepção e pediu que me alcançasse. “Insistiu para o senhor ligar ainda hoje, é importante. Dá pra entender a minha letra?”, ele sorriu. Respondi que sim, agradeci e o velho me desejou feliz ano novo. Devolvi os votos com um grunhido. Instantes depois, eu já respirava aliviado, outra vez só mais um anônimo, um ser invisível, perdido entre a apressada multidão porto-alegrense daquela última tarde de dezembro que se iniciava.

Na esquina democrática, reli o número. Bruna? A filha de Valquíria, certamente. O que a ruiva queria? E em que momento esqueci de anotar seu número, se ela nem falou comigo? Amassei o papel até transformá-lo numa bolinha e o arremessei à lata de lixo mais próxima. Cesta. De três pontos.

O celular tocou e nem me dei ao trabalho de ver quem era.

Lembrei que não tinha nenhuma compra a fazer, passaria o réveillon sozinho. Subi a Marechal Floriano e embarquei no lotação Tristeza - Assunção, que roncava o motor prestes a sair. Estava decidido a tomar o rumo de casa e tirar uma folga no feriado. Quem sabe pegar uma praia. Esquecer aquela Glock contra o meu nariz e o dinheiro que eu não receberia mais. Adeus, IPTU em parcela única. Refiz alguns cálculos e prognósticos da minha conta bancária e concluí que sempre dava para escolher uma pousada simples, nalgum balneário pouco movimentado do litoral norte.

Ainda existe praia pouco movimentada nos feriadões de hoje?

Simão ficaria fulo da vida. Havíamos combinado de fechar o escritório em janeiro, pegar a grana daquele caso e pescar lá para os lados de São Lourenço ou Pelotas, terra dele. Mudança de planos. Ele não ficaria nada contente. E eu ainda nem tinha dito que precisava do Maverick para aquela noite.

Pensando no que fazer, cochilei. Dormira quase nada, além do mais a tensão daquele final de manhã me provocou o cansaço de uma partida inteira de futebol. Fui acordado na Padre Cacique pelo cotovelo impaciente da senhora ao meu lado, em cujo ombro eu babava.

O celular tocou outra vez e, sem me dar conta, atendi. Mesmo sendo chamada com identificação bloqueada. Sim, eu sempre me arrependo de quebrar as minhas regras. Ou quase sempre.

- Detetive Leão? - perguntou uma voz grave e contida.

- Eu.

- Aqui é Ladislau.

Esfreguei os olhos. Quem?

- Encontrei o seu nome nos classificados do Correio.

- Uhum.

- Estou com um problema.

- Ah.

- O senhor faz investigações particulares, certo?

Pensei em responder que não, eu fazia cucas. Tinha uma padaria alemã e o meu anúncio era só uma pegadinha. Mas ele não tinha culpa do meu mau humor, ou daquela minha necessidade de urgente de tirar uma soneca. E ninguém me mandou atender ligação com número bloqueado.

- Sim. - respondi.

- Podemos conversar? - ele perguntou, após um breve silêncio.

Minha paciência estava sendo testada.

- Olha, eu atendi a ligação. O que o acha?

A senhora ao meu lado me olhou e fez uma careta. Talvez pela minha rispidez. Ou pelos resquícios da minha baba em seu ombro.

- Pessoalmente, eu quis dizer. - ele completou, após um suspiro.

Saquei o lenço do bolso e passei no ombro da mulher, que ficou ainda mais irritada.

- Ok. - respondi, enquanto fingia consultar uma agenda invisível - Só um instantinho, deixe ver aqui. Hum. Tenho horários na segunda, final da tarde, e terça pela manhã. Às onze.

Nova pausa do outro lado da linha. E novo suspiro.

- Hoje.

O lotação entrou na Avenida Chuí. O Guaíba deu lugar ao Barra Shopping na minha janela.

- Hoje? - perguntei, meio sem acreditar no que ouvia. Era o último dia do ano. E já passava da uma da tarde.

- Hoje. - a resposta dele veio rápida e firme.

Murmurei um “tudo bem” que não era meu. Ainda dava tempo de fingir que o sinal caiu, desligar o celular e tirar mais uma pestana no ombro amigo da minha vizinha de lotação. Mas eu não fiz isto. Eu prossegui naquela conversa que, por algum motivo, tinha todos os tons inexplicáveis de um arrependimento anunciado. E as piores previsões possíveis.

Eu não me entendo.

* * *

A seguir, perguntas para o próximo capítulo:

1) Quem será Ladislau?

2) Em que dia da semana são publicados os Classificados do Correio do Povo?

E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br

Amanhã, não perca o QUINTO capítulo de…