Capítulo 6
Em casa, aqueci um café no microondas por pura preguiça e fui até a janela, apreciar minha rua. Travessa Nossa Senhora de Lourdes - rua, agora é rua!, rebatia o síndico, irritado, toda vez que me ouvia falar em travessa. Nunca consultei a página da prefeitura para saber se a denominação era esta ou aquela. No site dos Correios, quando precisei descobrir meu CEP, vi que ainda constava como travessa, a despeito dos resmungos do Seu Alaor. Enfim. O que importava, de fato, era o nome gravado em minha história.
Apoiei os cotovelos no parapeito e percorri a quadra com o olhar, de um lado a outro, várias vezes e sem pressa, enquanto bebericava meu café preto e relembrava os acontecimentos do dia. Era algo que me fazia bem, pensar enquanto mesclava aquele exercício vão de nostalgia. Tenho qualquer necessidade de catar pedaços meus no passado, como sensações do tempo em que eu jogava bolinha de gude numa rua sem calçamento, ou que o pai chegava de muito longe a cada início de final de semana. Ainda espero os raros abraços daquele rosto sisudo. Sim, tenho saudade das minhas faltas. Que absurdo. E sei que jamais reencontrarei cenas da minha infância num lugar onde até o campinho, em que dei meus primeiros chutes, virou um prédio. O prédio onde agora eu morava, aliás. Mas me fazia bem reconhecer algumas fagulhas de minhas cenas perdidas a me acenarem, ainda que asfixiadas, por entre as poucas frestas permitidas pelo presente.
Espiei o relógio do celular. Dezoito e vinte e dois. Pretendia despachar o meu novo cliente até as nove, no máximo. Até porque ele não me parecia ter muita coisa a dizer afora como e onde aconteceu o sumiço do notebook. Ladislau, o homem que gosta de rir. E com voz de quem é generoso nos pagamentos. Era o que eu esperava. Pretendia garantir as minhas limitadas férias de cinco dias, com aquele pequeno caso, e já imaginava meios de montar um orçamento supervalorizado, quase tão indecente quanto uma compra pública. Com todas as alegorias e justificativas possíveis para incrementá-lo. E, assim, compensar o prejuízo com Dona Valquíria, mesmo que eu não fosse pescar com Simão na Costa Doce.
Dois meninos passaram de skate na calçada, lá embaixo, e com um sorriso me lembrei das peripécias que eu aprontava com a minha Berlineta vermelha, nos anos 80. Voar pelo bairro sobre as duas rodas aro vinte, empinar perigosamente até o estacionamento do Real, ou parar no portão do Mãe de Deus apenas para ver as meninas de uniforme saírem das aulas. Não era uma bicicleta nova. Ganhei quando foi descartada pelo Bernardo, um primo tão rico quanto chato que morava na zona norte. Nunca mais vi o Bê. Nem quis. Mas sua bicicleta foi a minha vida por muitos anos.
Terminei o café e deixei a xícara balançar no vazio. Nove da noite era um bom horário limite para negociar com Ladislau. Depois, teria tempo suficiente de ir até a casa do Simão, explicar o que houve, pegar o maverick. E partir para a minha última tarefa do ano, antes de escolher entre assistir aos fogos do réveillon no Gasômetro ou pela TV: monitorar a casa de Janete.
A casa de Janete.
Pra quê, mesmo?
* * *
A seguir, perguntas para o próximo capítulo:
1) Berlineta era uma bicleta Calói ou Monark?
2) Quem será Janete?
E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br
Amanhã, não perca o SÉTIMO capítulo de…

