Oscar Bessi

Leão entre as dunas 7

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Capítulo 7

 

Ele subiu as escadas do bar pontualmente às 20h. Eu já bebericava um chope da casa, numa mesa ao fundo, de onde podia ver não só a porta, como o movimento da Avenida Wenceslau Escobar na rótula onde se inicia a pista dupla, com aquele canteiro inclinado no meio. Quando criança, a gente escorregava sobre aquelas gramas, deitados ou surfando em  pranchas improvisadas de papelão. Nunca rendia muito. Mas o perigo de estar entre os carros das duas pistas garantia a adrenalina.

Reconheci Ladislau pela roupa: ele se vestiu exatamente conforme me disse ao telefone. Eu, não. Regata rosa e bermuda florida jamais visitariam o meu corpo. Sou um homem avesso ao estardalhaço. Também menti sobre a minha aparência. Quer dizer, não exatamente menti, apenas troquei o artista famoso com o qual, modéstia à parte, me pareço. Enquanto ele esperasse por um loiro de olhos azuis, eu, moreno claro de suaves traços ítalo-caboclos, poderia observá-lo à vontade. Questões óbvias de segurança. Gosto de estudar o cliente antes que ele saiba que estou por perto.

Não consegui ver de que automóvel ele desceu. Não que fosse essencial, mas conta ponto. O carro me adianta algum percentual da personalidade do cliente. Depois, a roupa. O resto é a conversa, tiques, trejeitos, as emoções contidas e as espontâneas, o tom de voz ao revelar qual necessidade o fez me chamar, passagens da sua vida e o jeito de olhar detalhes do mundo. Um mosaico indispensável para que eu não entre em fria. Lembrei-me do olhar escuro e frio da Glock, horas antes, me falando sobre o quanto ainda se pode ter medo do inesperado. É. Com Valquíria, deixei várias peças de lado.

Vi meu cliente se acomodar numa mesa perto da porta, conforme sugeri. Ladislau era um tipo baixo e retaco, desses que não admite estar obeso e veste roupas esportivas e justas, tipo camisetas pretas que disfarcem a barriga. Um cabelo volumoso nas laterais, ainda que bem aparado, tentava sem sucesso desviar a atenção da calvície que dominava o alto da sua cabeça. Óculos de aros finos e um relógio discreto no pulso, celular moderno numa das mãos, tênis de marca. Um veterano jovial, adepto de escapadinhas com funcionárias da empresa, uma penca de filhos rebeldes e marido de uma senhora simpática, porém despreocupada coma a aparência, que passa os dias entre fuxicos, bingos e missas. Foi atendido imediatamente por um garçom solícito e respondeu com gestos distantes, sem qualquer esforço em parecer simpático. Acostumado a dor ordens, pensei. Além de apreciar uma zombaria ao telefone. Daquele tipo de cara que ao conversar com um empregado, ou o jardineiro, ou o eletricista em sua obra, fala mais alto, como quem dialoga com um ser inferior que, feito as crianças e os doentes e o poodle que deu para a sua mãe, ele crê ter habilidade mental de compreensão mil vezes menor. Então está sendo a encarnação da generosidade ao lhe dirigir algumas palavras. E acha muito engraçadas as piadas idiotas que, mal sabe, o outro só ri para se livrar da cara dele o mais rápido possível.

Não, nada de eu ser recalcado. Só não simpatizei com Ladislau. Assim, na lata. Era a terceira chance de cortar aquele caso pela raiz e foi o que decidi fazer. Última noite do ano, já tinha passado os meus bocados da semana e não tenho nenhuma necessidade de me enfiar em martírios anunciados. Não estou morrendo de fome. Levantei, peguei a comanda sob o saleiro e dei o dois últimos goles no meu caneco. Podia me mandar dali que o Ladislau nem perceberia quem era, ao me ver passar. E, no máximo, durante a hora seguinte me aporrinharia com uma série de ligações nervosas para saber o que houve. Ligações que eu não precisaria atender.

Fui.

Eu estava próximo ao balcão, quando surgiu a morena do vestido verde na porta do bar. Diminuí o passo para contemplá-la. Dois garçons correram para recebê-la, naquela solicitude que só as mulheres lindas e os ricaços muito influentes merecem, em todos os lugares do mundo. E ela era, de fato, exuberante. O vestido, curto e coladíssimo, deixava ver um corpo de dar inveja a essas dançarinas de programa de auditório. Parecia emergir de um desses comerciais de cerveja.

Ela não sorria. Não respondia aos garçons. Ela apenas atraía todos os olhares embasbacados do bar. E, cercada de paparicos, ela veio até a mesa do Ladislau. Que a encarou.

Opa!

* * *

A seguir, perguntas para o próximo capítulo:

1) E essa morena, agora? Quem será?

(a) Uma espiã.

(b) Uma pistoleira que vai executar Ladislau em pleno bar.

(c) A mulher do Ladislau.

(d) A amante do Ladislau.

(e) Ninguém, ela só estava passando e Ladislau olhou pra ela, como Leão também fez.

2) Leão vai voltar atrás e assumir o caso?

E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br

Amanhã, não perca o OITAVO capítulo de…