Capítulo 9
Confesso que me assustei com o olhar daquela mulher. O garçom chegou com nossos chopes e, na mais caprichada de suas gentilezas, perguntou se ela beberia algo. Grunhiu que não, sem ao menos devolver uma migalha qualquer de atenção ao rapaz.
- Pra quê? Pra ter só mais um papel guardado em casa? - rosnou.
Uma pantera, pensei. Ladislau segurou o seu braço como quem pede calma.
- A polícia está sempre muito ocupada com coisas maiores, tem pouca gente e não nos daria atenção. - ele disse - Sabemos a realidade. O B.O. seria mero um rito burocrático. O que queremos é um resultado imediato. Precisamos recuperar o computador.
Lembrei Júlio me falando sobre os mais de trinta mil inquéritos parados na sua DP. E dos setenta novos casos que entravam, em média, por dia, através de registros no balcão de atendimento. Isto sem contar os crimes que iam direto para as especializadas, como homicídios e crime contra a mulher. Embora o litoral estivesse reforçado pela operação verão, as dificuldades não seriam diferentes. Ele estaria tão a par assim da realidade policial ou aquela era apenas palpite de um cidadão observador?
- Levaram o notebook e o que mais? Jóias? - perguntei.
Eles se olharam.
- Não.
- Grana?
- Antes fosse. - a pantera rosnou outra vez.
Pensei no que levaria o furto de um notebook a ser pior do que levarem dinheiro ou jóias. Certamente algo que, na mão de outros, deixasse Ladislau, ou ele e sua morena, numa situação comprometedora. Minha mente foi longe e voltou mais de uma vez em velocidade máxima. Uma coletânea de vídeos caseiros picantes?
- Nada. Nem um tostão. - ele finalmente me respondeu, retirou os óculos, limpou as lentes com o guardanapo e o deixou ao lado do copo de chope, que ainda não tocara. - Só o notebook.
A morena largou a lixa de unhas e enfiou a cabeça entre as mãos, num gesto de desânimo. Fios rebeldes dos seus longos cabelos negros caíram pelos braços e eu lembrei que ainda não sabia o seu nome.
- Desculpe, mas ainda não sei o seu nome.
Ela nem me olhou.
- Ana. - murmurou Ladislau.
- Sara! - ela reclamou, num salto. Os dois se encararam, a morena apertou o olhar e ele baixou a cabeça. Ladislau recolocou os óculos.
- Ana é um apelido de família. - ela explicou, entre dentes.
Aham. E o Papai Noel pediu que eu me comportasse, para me dar uma bicicleta no ano que vem. Encarei a mulher. Eu começava a gostar daquele caso.
- Preciso saber mais. Como é o notebook, o que tem nele de tão importante e, acima de tudo, quem são vocês?
Ela me fuzilou pela segunda vez com os seus deliciosos olhos brilhantes. E segurou o braço de Ladislau, impedindo-o de começar a me responder.
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Amanhã, não perca o capítulo 10 de…

