Oscar Bessi

Leão entre as dunas - capítulo 1



1

 

Sou o maior perigo do mundo. A estupidez consciente que Martin Luther King tanto abominava. É o que penso nessas horas ingratas onde alguém tem um chilique e, do nada, decide me matar.

- Bela arma, dona.  - eu comentei, numa última tentativa de ser simpático. Ou de ganhar algum tempo.

Ela apertou os dentes e contraiu os músculos da face, a respiração alterada. Encarei o preto fosco impecável de sua Glock G25, calibre 380, dezesseis tiros e cano de quatro polegadas. Uma senhora arma, cara pra dedéu. E novinha em folha. Que inveja. Ela faria um belo estrago no meu rosto caso aquele dedo trêmulo decidisse, de fato, atirar.

Certo, não era exatamente do nada a sua raiva. É que a verdade pode ser uma jóia, ou um monstro do qual se quer apenas distância. Na maioria das vezes ela não interessa. Não convém e acaba repudiada. Ainda mais nestes casos. E eu estava ali para oferecer as primeiras provas de que o marido dela, de fato, tinha um romance extraconjugal. O trabalho que Valquíria, uma dentista aposentada e ares de socialite que agora lidava com negócios no mundo da moda, me pediu. Tarefa bem chata, confesso. Porém, a cada dez casos que pego, oito envolvem adultérios ou ciúmes. Os dias de sexo fácil tornaram os casais tão mais inconstantes quanto inseguros. Eu agradeço, ainda que me sinta meio vampiro, feito o vendedor de alarmes que se regozija na vulnerabilidade das nossas vidas.

Ela me acordou no início da manhã. A voz um pouco alterada e ansiosa ao telefone, Valquíria desejava muito saber se eu já tinha algo. Respondi num resmungo que sim, havia feito algumas fotos e vídeos, mas não tinha o relatório completo. Ela pediu para ver o material. Ainda zonzo pelo resto de um sono que recém iniciara, expliquei que não seria conveniente, estava trabalhando no caso há apenas dois dias, preferia evitar equívocos. Ela insistiu. Exigiu que a encontrasse no centro ainda naquela manhã, a última do ano. Pagava bem. Com um suspiro resignado, topei.

Quebrei três de minhas regras de uma vez só. Falar com alguém ao telefone ainda em estado de sonolência é plantar arrependimentos. Reencontrar o cliente sem encerrar o caso é dispensável. Mas, o pior de tudo, é aceitar o encontro num lugar que não era neutro.

Agora estávamos no escritório dela, uma sala ampla no oitavo andar de um edifício da Rua da Praia, não muito distante da Praça da Alfândega. Lugar bacana, a vista, através das amplas janelas de vidro, mostrava recortes do Guaíba por entre as frestas dos outros prédios. Lindo. Mas não para morrer. E eu tinha outros planos para o meu réveillon. “Bem feito”, me amaldiçoei em silêncio, ao encarar outra vez o cano nervoso da Glock. Eu não costumava entregar relatórios aos clientes em meu escritório, tampouco ia até a casa ou ao trabalho deles, e isto por uma questão lógica. Os resultados das investigações podem gerar reações emotivas. Passionais. Então, para acertos derradeiros e entrega de dossiês, eu escolhia sempre lugares neutros e movimentados. Bares. De preferência com chope gelado e algum picadinho. Mas era o último dia do ano, ela estava desesperada ao telefone e eu ainda precisava ir às compras.

Qualquer mundo organizado começa a desmoronar quando se abre a primeira exceção.

Valquíria me encarou e mordeu os lábios com os dentes inferiores. Braço direito esticado, elevou a mira do meu peito para a testa, o que não gostei nada. Tinha os olhos cada vez mais úmidos, o rosto crispado, a tez lívida. Com a mão esquerda, apanhou novamente o meu celular com desprezo e passeou o polegar pelos ícones da tela. À medida que revia as fotos, seu rosto se transfigurava. “Mentiroso! Golpista!”, rosnou, ao me encarar outra vez, destilando ódio e o indicador embranquecendo contra o gatilho. Jogou meu celular contra a parede e avisou que eu não levaria, de jeito nenhum, o dinheiro dela. Não com aquela montagem barata.

Pensei em perguntar como seria possível fazer montagens em fotos e filmes de celular, mas achei melhor ficar quieto. Ela estava transtornada. E havia aquela Glock louca para me fazer mal. Qualquer palavra minha, mal colocada, poderia ser a última.

Era para ser um caso simples. Adultério. O meu nome é Leão e sou detetive particular. Se há algo que aprendi, na minha profissão, é que nunca há caso simples. Ainda mais quando se trata de adultério.

Uma porta lateral se abriu e Adamastor entrou na sala. Ele me encarou com seus enormes olhos cinzentos e um sorriso triunfante. Bah. Por essa eu não esperava.

 

* * *

 

A seguir, perguntas para o próximo capítulo:

1 - Como o Detetive Leão sairá dessa enrascada?

a) Valquíria vai mudar de ideia e guardar a arma; b) Valquíria vai apertar o gatilho e errar o tiro, assim Leão aproveita e foge; c) Leão desarmará Valquíria; d) a Polícia vai invadir a sala, avisada por Adamastor.

2 - Quem é Adamastor?

a) o marido de Valquíria; b) o Amante de Valquíria; c) um detetive concorrente; d) um policial.

 

E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br

Amanhã, não perca o segundo capítulo de...