Capítulo 12
Confesso que mesmo tendo ficado pouco tempo na polícia, e que isso já fosse parte de um passado nem tão recente, me incomodava aquele tipo de comentário depreciativo. Ninguém sabe o sufoco que é uma delegacia, a sobrecarga de trabalho contra um quase nada de recursos. O medo do sistema legal se voltar contra o sujeito ao dar qualquer passo em falso, na ânsia de resolver um caso. A vulnerabilidade. Debochar sem conhecer a realidade é fácil. Tudo bem, há maus policiais. Os corruptos. Os desinteressados. Os oportunistas. Mas péssimas índoles estão em todos os lugares, das creches aos conventos. Se o sistema era falho e deixava todo mundo na mão, ele não foi inventado pelos caras com distintivo. O furo era bem mais em cima.
Respirei fundo. Eu não sou mais da polícia e não tenho que me meter.
Além do quê, a morena era linda demais. Eu ainda tinha alguma esperança de nos tornarmos amigos.
O careca apenas sorriu ao seu lado, recuperou e a pose e me estendeu um envelope pardo que sacou não vi de onde. Abri, contei rapidamente o punhado de notas azuis de cem reais. Em seguida, me entregou um molho de chaves - umas vinte e mais um chaveiro metálico de caminhãozinho -, que disse ser da casa. Dois controles para os portões da casa e um terceiro para ativar e desativar alarmes. Esperei que, depois disso, viesse um coelho ou lenços coloridos. Onde ele guardava tanta coisa, naquela bermuda aparentemente sem bolsos?
Ouvi as últimas orientações, levantei e me despedi. Fui tomar um derradeiro e descansado chope longe dos dois.
Enquanto bebericava, espiei outra vez o envelope, o maço generoso de notas de cem e o casal que acabava de me contratar. Pareciam discutir, o clima visivelmente não era amistoso, ainda que discreto. Os fuzis no olhar da morena agora tinham outro alvo. Ladislau pareceu corar, irritado. Tinha as mãos agitadas e bufava. Observei os dois por um tempo. A discussão durou longos minutos. Até que ela fez alguns gestos com o indicador em riste e se levantou. Passou ao meu lado sem me olhar. Ele esfregou um guardanapo no rosto, nas mãos e na careca, bufou uma última vez com força e levantou em seguida. Foi ao caixa enquanto ela já saía porta afora, nem aí para a gentileza dos garçons que fizeram menção de acompanhá-la.
Ao sair, Ladislau se aproximou da minha mesa. Suava.
- Não se esqueça de me ligar. - murmurou.
Ele estava pressionado, deu pra ver.
- Combinado.
- E tente conseguir esse notebook antes dos três dias.
- Vou fazer o possível.
- Preciso do impossível. E pago bem. - ele rosnou. Mania daquela gente, rosnar.
- Ok. Mais um chope? - ofereci, querendo ser gentil.
Ladislau não respondeu e saiu, apressado.
Fiquei intrigado, virei outro generoso e refrescante gole de chope, limpei a espuma dos lábios e dei de ombros. Nervosa, aquela dupla. O notebook estava balançando suas estruturas. Outra vez, conclusões picantes sobre os arquivos tomaram conta da minha mente. E tentei lembrar se conhecia a morena da TV, ou colunas sociais. O problema é que raramente leio colunas sociais. Certo mesmo era que os arquivos do notebook, fossem quais fossem, se caíssem em mãos erradas fariam um belo estrago na vida dos dois.
Eu não poderia esquecer o meu pen-drive.
Vi, através da janela, Ana - ou Sara - gesticulando com veemência, enquanto seus cabelos balançavam ao vento. Em seguida, sumiram do meu campo de visão. Que discutissem. Que se matassem. Pagando bem, estava tudo bem.
Três dias na praia que, obviamente, eu esticaria para uma semana ou mais. E uma bela grana. A pescaria do meu amigo Simão estava salva.
Lembrei que precisava saber a placa do carro deles. Com a placa em mãos, eu poderia pesquisar muito mais sobre seus nomes e suas vidas. Levantei, corri para a porta, gritei um já volto ao garçom que arregalou o olho e vasculhei a calçada com o olhar. Nem sinal dos dois entre os veículos estacionados ali por perto.
O careca e a morena deslumbrante haviam evaporado.
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Segunda, não perca o 13º capítulo de…

