Oscar Bessi

Leão entre as dunas - capítulo 2

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Capítulo 2

Minutos antes, fui surpreendido pelo vulto inquieto de Valquíria assim que saí do elevador, no oitavo andar. Ela me recebeu com a porta do escritório aberta, gesticulando impaciente e atropelando frases. Só entendi a parte onde ela pedia para que eu entrasse. Não era mais aquela senhora calma de gestos contidos e fala suave, de dois dias antes, que me inspirava alguma ternura, ou qualquer preocupação de avó com as travessuras do seu neto moleque. Observei sua inquietação e concluí que tinha cometido, antes de tudo, o meu quarto erro: não pesquisei a sua história e confiei na primeira impressão. A habilidade natural do meu sócio Simão, de conhecer alguém num mero passeio do olhar, não me pertence. E saber da vida, seus amores e traumas, seus sonhos e pesadelos, é, no meu método investigativo, determinante. A história de cada um me dirá o que ele, ou ela, é ou não capaz de fazer. Pulei esta parte com Dona Valquíria. Então eu nem poderia me surpreender com nada que acontecesse dali em diante.
Mesmo assim me assustei.
Passava sete minutos do meio-dia, quando ela bateu a porta atrás de nós, girou a chave e selou com pressa outras três fechaduras pesadas. Nada de anormal, desconheço uma sala ou apartamento em capital brasileira que, mesmo no centésimo andar, não possua mil trancas receosas de invasões. Seu nervosismo é que estava um pouco, digamos, acima do tom. Passamos pela recepção e deduzi que a secretária, que costumava fazer as ligações para o meu telefone com voz melosa, não estava. Minha cliente mal me encarava, num olhar fugidio que era ao mesmo tempo tenso e titubeante. Chegamos a uma sala ampla e carpetada e Valquíria perguntou o que eu sabia, afinal. Hein? Ele tem outra?, disparou.
Respirei fundo e respondi que não, ele não tinha outra.
Ela sentou em sua poltrona confortável, atrás da ampla mesa de mármore onde se espalhavam catálogos, desenhos, revistas, notas fiscais e outras papeladas que não identifiquei. “Que bom”. - ela murmurou, agora me encarando, o olhar cada vez mais estranho. Tinha impressão de que ela tentava, sem sucesso, atuar. “Então quanto lhe devo, mesmo?”.
Entranhei a pergunta. Havíamos combinado o orçamento dois dias antes e, na mesma noite, lhe enviei cópia detalhada por e-mail. Pigarreei. Ela franziu o cenho. É que eu não havia encerrado o assunto, ao contrário do que Valquíria parecia ter entendido.
- É outro. - decidi ser direto.
Ela arregalou os olhos e agora o espanto era genuíno. Sem falar mais nada, digitei minha senha de proteção no celular, cliquei no atalho de arquivos de mídia, abri a pasta com o nome dela e lhe estendi. Ela clicou com os dedos trêmulos nas fotos e, por fim, no vídeo. Na gravação, eu mostrava o momento em que o seu marido entrava e saía de um motel da zona norte, num intervalo de duas horas, com um rapaz que tinha o triplo do seu tamanho e um terço da idade. As fotos eram de outros momentos alegres entre ambos na mesma tarde, num shopping. Precisei apenas de um dia e meio para conseguir aquela filmagem.
Olhei o meu celular voar contra a parede. Pelo jeito, minha eficiência não fora apreciada.
- Mentira!
Sua expressão era puro desespero e ódio.
- A senhora viu bem? Era ele e...
- Seu chantagista barato! Está querendo arrancar o meu dinheiro com essa farsa!
Observei a sua reação. Tudo bem, sempre é difícil para quem é traído aceitar o fato. Normal. Mas, ali, ao lembrar o que ela me dissera no primeiro - e único antes daquele - encontro que tivemos, talvez fosse um caso clássico de homofobia instintiva. Enquanto a possibilidade era de uma menina mais nova, um envolvimento de trabalho, tudo bem, ela chegou a dizer nas entrelinhas que entendia e até já esperava por isso. Certamente iria perdoá-lo, só queria mesmo saber era quem era a fulana e tomar providências no sentido de mandá-la para bem longe e evitar, assim, que a tal amante arrancasse muito dinheiro do seu marido. Mas aceitar que o esposo era gay, bom, aí rompia com seus padrões culturais e prognósticos. Traída por mulher é normal. Por homem, escândalo. É como o sujeito que alega não ser racista, mas não admite que a filha case com um negro. Comum.
- Não tenho como fazer uma montagem no celular. - falei, com as sílabas mais cautelosas que consegui. Um mau pressentimento me provocou um arrepio. Ou foi o ar-condicionado, que transformava o verão de onde saí, lá fora, numa improvável e repentina estação do Pólo Norte.
Os olhos dela se apertaram furiosos. Valquíria levantou num gesto brusco, abriu a gaveta e foi neste momento que me apontou a Glock. Que arma!, fui obrigado a admitir. Demorei alguns instantes até me dar conta de que, no jogo dos meus quatro erros daquela última manhã do ano, perdi. E talvez sem chance de repescagem.
Adamastor, o marido, entrou na sala, saído de uma porta lateral. Um sujeito alto, grisalho, charmoso e bem vestido. O sorriso dele me dizia de forma clara o que aconteceu: ele talvez tenha lido o e-mail e, assim, descobriu que a mulher o investigava. Correu na frente para inverter a situação e deu certo. Ele tinha certeza sobre qual seria a reação da mulher. Valquíria não aceitaria a verdade em nome das suas convenções íntimas ou sociais. E, agora, o vilão era eu.
- Eu alertei minha esposa sobre a farsa que o senhor havia montado para nos chantagear, detetive.
Novidade. Era por este motivo que, desde a ligação feita pela manhã, ela vinha com aquela conversa de pagar mais, quanto lhe devo, etc. Queria me ouvir falar em mais grana, seria a prova definitiva das minhas intenções chantagistas. Nem desconfiei.
- Valquíria é uma mulher forte, guerreira, mas por vezes insegura. Sabe da minha fidelidade, não há qualquer moça - ele destacou a palavra moça e me encarou firme - que me tenha a capacidade de me fazer trocar minha esposa por um instante sequer. No fundo, ela sabe disso e o senhor percebeu. Aí quis se aproveitar com essa montagem barata.
Valquíria olhou para ele como quem pede colo. Senti que era o momento, o agora ou nunca mais. Mulheres são mães. Mulheres não matam de graça, feito os homens. Ela desarmou a fisionomia entre lágrimas, balbuciou um pedido de desculpas e percebi que o braço amoleceu. Era a minha deixa. Luto capoeira, fiz judô no colégio e tentei dançar chula - essa parte da minha vida nem o meu sócio, que é tradicionalista, sabe. Além disso, fui policial. Num movimento rápido com os braços, mandei sua Glock para o outro lado da sala. Sorte o vidro estar fechado, a pistola bateu na janela e voltou, adormecendo inofensiva no carpete verde-musgo. Com movimentos rápidos eu a apanhei enquanto os dois me encaravam, atônitos.
Com aquela beleza de arma agora na minha mão, eu os encarei.
- O meu celular, por favor. - eu disse, ainda um pouco ofegante.
Nenhum dos dois fez menção de me obedecer.

A seguir, perguntas para o próximo capítulo:

1) Qual será a reação de Adamastor?

2) Valquíria vai desmaiar ou avançar contra Leão, para agredi-lo?

3) Uma outra personagem entrará em cena inesperadamente ou Leão conseguirá resolver tudo sozinho?

E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br

Amanhã, não perca o terceiro capítulo de…