Capítulo 3
- Meu celular. - repeti, a Glock na mão. Confesso que estava gostando de empunhar aquela arma, embora minha paixão siga fiel ao meu velho .357 Magnum - Só quero o meu celular. Podem me alcançar?De repente, Valquíria bufou, se jogou na minha direção com as unhas em riste e Adamastor perdeu a pose querendo contê-la. Por um segundo pensei que rolaríamos os três pelo carpete e tentei lembrar se aquele modelo de pistola tinha trava de segurança. Julio havia me mostrado as 24/7 que a polícia recebeu, elas não tinham. Melhor jogar a arma longe e evitar uma tragédia, mas se jogasse longe e alguém pegasse, a tragédia seria só minha. Tudo isso eu pensei assim, de relance. O desespero faz pensar muita coisa em um segundo.
Porém, tudo se interrompeu no próximo instante com um grito na porta. Valquíria congelou com os dedos a milímetros do meu rosto. Adamastor teve outra descompostura, agora em novo acorde. Olhei para a porta, de onde a voz agora perguntava o que é que estava acontecendo ali. Uma ruiva exuberante, regata branca, decote generoso, olhos de um verde oceânico. Ela tinha as mãos na cintura e de uma delas pendia uma pequena bolsa. Seria a recepcionista da voz melosa?
- Filha. - balbuciou Valquíria, e levou as duas mãos ao rosto ao mesmo tempo em que um choro sacudia o seu corpo inteiro. Trôpega, foi até a porta e se deixou cair nos braços da ruiva, que quase caiu também. A jovem me olhava.
- Não é assalto, moça. Fique tranqüila. - apressei em me explicar. Retirei o carregador e desmuniciei a Glock. Enfiei as balas no bolso e guardei a arma na mesma gaveta de onde minha cliente retirara, minutos antes. - Isto é da sua mãe e estou devolvendo. Só não vou correr riscos, claro.
O choro de Valquíria aumentou o volume. Adamastor, mais nervoso do que quando eu apontava a arma, fez um gesto com a mão espalmada, me pedindo calma, depois pediu calma para a ruiva e, sem deixar de nos encarar alternadamente, juntou o meu smart. Ele me alcançou os dois pedaços pretos e a bateria. Suas mãos suadas tremiam.
- Vamos resolver isto. - gaguejou.
Eu respondi com um sorriso. Tentei que fosse cínico, mas acho que foi fulo da vida mesmo.
- Por mim, está tudo resolvido. Caso encerrado. E não quero um centavo do dinheiro de vocês.
Fui até a porta, fiquei bem perto da ruiva. Perfume bom. Expliquei, era um detetive particular contratado pela mãe dela - é sua mãe, certo?, ela respondeu que sim apenas com um gesto de cabeça - e que os primeiros resultados que apresentei haviam gerado aquela reação mais emotiva. “Depois ela te conta. Dê um copo d’água pra ela”, eu disse. “E pra ele também”, apontei o Adamastor com o nariz e saí.
Enquanto esperava o elevador e ouvia a porta do escritório se fechar, com a voz da ruiva se elevando lá dentro, pensei no que tinha virado o meu último dia do ano. Nada bom. Encerramento perfeito para um 2014 onde gastei o que não tinha para ver uma final de Copa do Mundo no Maracanã com argentinos e alemães. Bem que uma cigana havia me avisado, no Mercado Público: não seria um ano do dinheiro.
Eu sabia que ainda iria me arrepender daquilo. Quando fico brabo com alguma insanidade dos meus contratantes, não quero mais pagamento algum. Já perdi bons trocados por culpa desta falta de paciência. O Simão vai me estrangular, pensei com meus botões.
Ouvi um barulho na porta. Deixei o elevador de lado e desci os oito andares pela escada. Sorte que o telefone havia apenas se desmontado. Enquanto saltava de dois em dois degraus, recoloquei bateria, capa e o liguei. Tudo certo. Apenas o relógio havia se mudado para qualquer fuso horário lá do fim do mundo.
Na portaria do prédio, um sujeito de uniforme se atravessou na minha frente e me impediu a saída.
É hoje, pensei. É hoje!
* * *
A seguir, perguntas para o próximo capítulo:
1) Quem quer impedir a saída de Leão do prédio?
2) Em que rua, mesmo, se localiza este escritório?
E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br
Amanhã, não perca o QUARTO capítulo de…

