Oscar Bessi

Leão entre as lágrimas

Chorar é ter coragem. Há uma grandeza qualquer ao se permitir chorar sem pudor, sem vergonha, sem medo. E quando alguém se permite chora por amor, vejo uma luz intensa, e única, em cada lágrima. Que não sei explicar, mas me comove. E me faz admirar quem chora. Quem ama. Um amor que verte, por ser tão forte, por ser ousado.

Eu amo. Ou amei. E julguei que era de verdade, então queria muito chorar pelo meu amor esfacelado. Ainda sinto alguma dor e confesso que quase consigo, às vezes, chorar. Mas travo.

Ela chorou por amor, na minha frente. E eu nem me mexi, apesar da vontade de levantar da cadeira e lhe abraçar, pegar no colo, fazer um carinho sincero que não diria nada além de “admiro você”. Ou aqueles clichês que prenunciam que tudo vai dar certo, vai acabar bem, a dor vai passar e outras mentiras clássicas que nos fazem bem na hora do desespero. Clichês. Nossas vidas são clichês, nossos bálsamos também. Rolei a caneta entre os dedos e sublinhei, sem razão nem por que, o nome do sujeito que recém anotara e fiquei olhando a janela, o dia cinzento lá fora, o frio ainda pela metade do outono e a tristeza que tudo traz, quando a gente não consegue, por absoluta ausência de forças, ver o resto.

Se por acaso eu resolvesse fazer da minha vida um clichê, pensei que esta seria a grande oportunidade. Meu nome é Edgar Leão e sou detetive particular. Meu sócio, Simão, é um policial militar aposentado, pelotense, que não abre mão de três coisas na vida: o chimarrão, seu basto bigode e o chaveiro com um índio xavante, vestindo a camisa do Brasil de Pelotas, que carrega todas as suas chaves e pendura na guaiaca - sim, ele usa bombacha praticamente em cem por cento do tempo. Nós nos conhecemos logo após eu sair da polícia, ao negociar o maverick que até hoje não terminei de pagar. No resumo da vida que não interessa, ficamos amigos. E nos tornamos sócios. Alugamos uma sala comercial pequena, no “centrinho” da Tristeza, porque ambos moramos aqui perto. Não há tabuleta na porta, ao contrário dos clássicos da literatura policial. Raramente estamos por aqui. É apenas a nossa base. Nem o alvará providenciamos ainda. Simão organiza arquivos, pastas, faz alguns contatos, paga nossas contas e controla as despesas, depois vai pra casa. Ele me disse que comandou a unidade, no final da carreira, de um município pequeno, onde controlava tudo sozinho, planinhas de combustível, de ocorrências, de pessoal. Tinha experiência administrativa. Eu, não. Eu lido com os contratantes e vou a campo.

Temos uma diferença no método, eu e Simão. Ele fica quieto, sorvendo um mate, e tira conclusões quase sempre acertadas sobre mentiras e falcatruas. Já viu muita coisa na vida. É um psicólogo da experiência. Eu, apenas olho nos olhos. E preciso acreditar que há uma alma pura, ali, antes de aceitar o trabalho.

E ela era uma alma pura. Mas o seu caso era diferente.

Não costumo receber clientes em nossa sala comercial. Prefiro bares, locais com muita gente ao redor, para evitar problemas. Para tomar um chope. E para minha segurança pessoal. Lido com casos passionais, na maioria das vezes. Se há um ditado correto, é aquele que diz que, enquanto os olhos não veem, o coração não sente. Mas quando enxergam tudo e confirmam, com provas, bom. Não é raro me culpar por isto, e não o alvo investigado que trai. Já tive uma Glock apontada para a minha cabeça por abrir uma exceção em minhas regras. Hoje, abri outra. Só que desta vez, eu não tinha uma arma engatilhada querendo enviar minha alma para outra dimensão. Era pior. Tinha a ternura de um amor sincero.

Sonho todos os dias com a essência humana de alguém verdadeiro. Mas não sei lidar com ela, quando a encontro.

Aceitei que conversássemos em meu escritório. Ela me ligou pouco depois do meio-dia, leu meu anúncio nos classificados, pedia urgência. Disse que era advogada. Que precisava muito da minha ajuda. E não aceitou bar, banco de praça, terminal do trem. E se ela tivesse uma voz melosa, ou sedutora, ou se ela esbravejasse seria tão mais fácil negar. Mas trazia uma aflição verdadeira. E a verdade de um sentimento, feito minha conta bancária, é o que me derruba.

Ouvi suas batidas tímidas na porta pontualmente às quatro da tarde. A penumbra do meu escritório não era proposital. O dia escurecia mais cedo na ameaça de chuva, a lâmpada era a mais fraca possível por questões de economia. Eu e Simão sonhávamos com o caso milionário que nos transformaria numa grande agência de investigação particular, móveis finos, recepção adequada. Por enquanto, nadávamos entre maridos e mulheres traídas que não pagavam grandes coisas. Quando pagavam.

Lembrei os clássicos que li, ou vi em filmes noir, sobre detetives que viam sua porta abrir na penumbra, no início de suas aventuras, para a entrada de mulheres deslumbrantes, com suas curvas perigosas, vestidos sensuais a mostrar generosas doses de pernas e peitos, batons rubros que aceitavam cigarros e uísques ou já um beijo ardente, além de outras excitações clássicas. Mas a mulher que surgiu na minha penumbra era melhor que todas estas. Tinha o charme da discrição, o belo do simples, a aura dos seres humanos que valem a pena. E que a gente percebe ser capaz de morrer por ela já num primeiro olhar.

Cumprimentei-a com um resmungo desajeitado e pedi que entrasse, mas por alguns segundos admirei seu sorriso acanhado e prudente, o olhar caído, um corpo que não prometia luxúrias, mas mostrava que era uma mulher bonita e sua beleza residia em suas ausências. Não era exuberante. Talvez não recebesse cantadas na rua. Mas me pareceu a mais bela mulher com quem me encontrei nos últimos tempos.

"Sente-se, por favor", eu disse. Ela obedeceu e puxou a cadeira com gestos inseguros, vacilantes, as mãos trêmulas de carência e receio. Bateu um vento mais frio. Lembrei do que Simão havia dito e repeti, a fim de puxar conversa e aliviar seu desconforto.

- Vento pampeiro. Traz frio e chuva, vou fechar a janela.

Ela sorriu. Um quase meio sorriso.

- É advogada, então?

Ela assentiu, muda. Mordeu os lábios e vi que choraria em instantes.

- Quer uma água?

Fez que não, com a cabeça. As lágrimas começavam a explorar o mapa de seu rosto, contidas, em dúvida.

- Café?

Também não.

Sentei outra vez. Eu me curvei para frente, na sua direção, e resolvi segurar a sua mão por absoluta falta de saber o que fazer, por começar a sentir uma agonia em meu peito como se já soubesse de tudo, como se a conhecesse, e compartilhasse feito um velho amigo aquela dor.

Foi aí que ela chorou mesmo. Soluçou. Seu rosto se transformou numa máscara de dor e agonia. Como é bela a dita feiura da verdade. Ela mergulhou fundo no abismo de sua própria dor num voo cego que talvez ainda não tivesse provado, pelo menos não assim, perante alguém, permitindo-o solto e intenso, despido. O cinza do céu ficou mais forte. O frio ignorou o vidro. E eu quis chorar junto, mas travei. Ainda bem.

Dez ou quinze minutos depois, apenas, ela conseguiu falar. E me pediu desculpas. Fiquei pensando em como é engraçado, isto. Ninguém pede desculpas por ser estúpido, ou falso. Apenas por ser frágil. Apenas quando é verdadeiro.

- Preciso que investigue o meu noivo. - ela explicou, secando os olhos, o rosto, as mãos.

Suspirei, resignado. No fim das contas é sempre a mesma coisa.

Ou não.

- Quero saber se ele me ama de verdade. - ela completou, e o seu olhar trazia súplica e desespero.

Suspirei outra vez e ela interpretou como impaciência.

- Desculpe. Sei que parece bobagem de uma mulher louca.

Eu a encarei.

- O amor não é louco. Louco é quem não consegue amar.

Ela me olhou firme.

- Quer dizer que vai aceitar o caso?

- Não sei se é um caso. - eu disse, e fiz uma pausa para organizar minhas ideias em rebuliço, abaladas pela sinceridade da mulher à minha frente - Mas quero saber, primeiro, o seu nome. E o motivo de ter me procurado.

Chamava-se Laura. E me mostrou, com humildade, sua carteirinha da OAB, para provar que era ela, sim, e era advogada. Só aquele gesto já me mostrava alguém diferente. Alguns advogados que conheci se identificavam apenas com o nariz empinado. Era o que bastava. Ainda mais quando eu ainda estava na polícia.

Laura era criminalista. E, para desespero de colegas de escritório e da família, ficou noiva de um sujeito que recém saíra da cadeia. Por pensão alimentícia, explicou. Mas, para os que a cercavam, tudo se resumia no fato de andar “dando para um presidiário”. Um atestado de burrice, de incompetência, de ingenuidade idiota e promiscuidade. Incompatível com o trabalho. E, diziam, ela até poderia ser tudo isto. Boba, burra, puta. Mas com um sujeito decente, pelo menos. Os boatos eram de que o chefe, indignado - o mesmo que a cantara duas ou três vezes e saía, sem se preocupar em esconder de ninguém, com a estagiária que tinha a idade de sua neta -, a afastaria da equipe temporariamente, antes de demiti-la. Apenas esperava um erro seu. Com a colaboração óbvia de alguns colegas.

- Como ele é? - perguntei.

- O Anselmo?

- Aham.

- Um homem bom. Carinhoso, calmo, muito na dele. Teve um primeiro casamento difícil e está desempregado. É professor de História. Estava sem grana, eu não tive como ajudar e a ex-mulher dele não teve piedade. Acabou preso. Trinta dias.

Ela me contou sobre o recurso que tentou, os deboches, o caso vindo à tona, as piadas, a reunião de aconselhamento com o chefe, os desaforos.

- Parece admirá-lo.

- Cruzes! O meu chefe?

- Não, o Anselmo.

- Sim. Eu o amo. - ela sorriu, triste.

- Por que, então, a dúvida sobre o que ele sente?

Ela baixou a cabeça. Novas lágrimas tímidas brilharam lentas em suas bochechas.

- Quando a gente começou a sair, ele era casado.

Deixei escapar um pensamento silencioso que lamentou sobre não haver anjos neste mundo. Sob toda verdade, por mais bela que seja, há um tapete de mentiras. Ela pareceu adivinhar e levantou um olhar arrependido.

- Mas eu não sabia. Juro.

- Isto não importa.

- Importa sim. Muda tudo.

- Por quê?

Laura levou o polegar e o indicador ao canto dos olhos, antes de me encarar e responder.

- O que minha mãe e minha irmã dizem. - ela engoliu lágrimas e suspirou, seus olhos pediam ajuda, imploravam que eu dissesse que não, elas estavam erradas - É que, assim como ele traiu sua ex, vai me trair também. Mais cedo ou mais tarde. E vai me deixar.

Todos só souberam do romance depois de ele ter sido preso e ela entrar em desespero na sua defesa. Isto influi?, perguntou. E me ditou o nome dele, que anotei mais por não saber o que fazer, ou o que dizer. Laura falou que estava jogando sua carreira fora, estava por trocar o seu futuro, a luta de uma vida. Não foi fácil estudar e trabalhar para conseguir o diploma, a aprovação na OAB, o emprego, tudo, e deixava toda essa materialidade, esse pseudo conforto  de lado, em nome de um amor imenso que sentia. Como jamais havia sentido em qualquer outro momento da vida. Mas era um amor tão grande quanto duvidoso. Então precisava só isto: ter certeza. Elas estariam certas? Todos estariam certos e ela era uma idiota, que apenas estava sendo comida por um aproveitador e nada mais?

E chorou, muito e novamente. Vi pela janela que o dia era quase noite e não era pela hora. Viria um temporal.

- Ele te faz bem? - perguntei.

Laura me encarou.

- O Anselmo?

- Também. Mas perguntei do amor.

Ela sorriu outra vez, mais triste, porém mais ela. Secou as lágrimas com as palmas das mãos. E me encarou com um olhar opaco de esperança.

- É só o que me faz bem. - ela suspirou, baixou a cabeça e sua voz saiu rouca e distante, como se viesse de uma caverna onde se escondem as verdades e as vergonhas, as mentiras e os prazeres. A caverna onde se guarda o armário de máscaras a vestir, antes de poder passear pelo mundo sem correr o risco de ser apedrejado.

Um silêncio longo e inquieto nos envolveu. Segurei a vontade de abraçá-la, levantei e fui até a porta. Abri.

- Desculpe. Não posso aceitar o seu caso.

Ela me encarou, aturdida. Os olhos num brilho úmido e doce.

- Por favor.

- Venha. Levo você até o andar de baixo.

Laura baixou a cabeça e levantou. Ajeitou a bolsa a tiracolo, secou outras lágrimas, pigarreou.

- Me desculpe. Eu não devia...

- Olhe. - pus a mão em seu ombro - Ninguém, além de ti, vai conseguir saber se ele te ama. Se eu aceitasse este caso, que não é um caso, estaria te tirando dinheiro, nada mais. Te dando um golpe.

Ela me olhou em silêncio.

- Eu desço sozinha. - disse por fim, a voz fugidia.

- Tá.

Vi seu corpo discreto se afastar em passos lentos na direção da escada.

- Laura! - chamei, antes que ela desaparecesse por completo na esquina de azulejos. Ela parou e me olhou, e vi que chorava outra vez, agora em silêncio.

Ela fez um gesto com o nariz como quem pergunta o que foi. Eu tentei sorrir.

- Ame, apenas isto. Ame muito. - minha voz não saiu firme como eu pretendia, minha verdade era trêmula - E não se importe com o resto.

Eu queria ter falado mais, queria ter dito sobre tudo o que acaba um dia, de qualquer jeito, então que se dane o que os outros pensam. Não saiu. Ela sorriu e se foi. Fechei a porta atrás de mim, sentei outra vez na minha cadeira e os primeiros pingos de chuva tocaram o vidro da janela. Pensei em Janete e uma lágrima quase saiu.

Quase. Travei.