Oscar Bessi

Leão entre os alvos 1 (o amor é frio)

Leão entre os alvos



Capítulo I: o amor é frio



1

 

Ímã.

Nos anos em que fiquei na polícia, era assim que alguns colegas me chamavam. Diziam que eu tinha uma liga qualquer para atrair ocorrências complicadas. Uns me chamavam de pé frio. Outros, pé quente. O adjetivo dependia da vontade de trabalhar do meu interlocutor. O problema é que eu tinha pressentimentos. Como naquele instante. Um pai-de-santo disse que era mediunidade. O psiquiatra chamou de traumas. Vá saber.

Conferi a hora, precisava tomar meu comprimido de venlafaxina. Isso lá é nome de remédio? Queriam varrer meu cérebro? Dois meses tomando aquelas porcarias de tarja preta - rivotril para dormir que não adiantava, três caixas de sertralina que foram o mesmo que mascar chiclete, não tiveram efeito concreto nenhum, fuoxetina e outras inas. Agora, venlafaxina. É "Vem na faxina da cabeça desse doido, desse homem que chora e não dorme e...

Bah. Janete, Janete. Por quê?

"Edgar Leão.", respondi, quando o sujeito perguntou meu nome pela segunda vez, num tom de voz mais alto, quase impaciente, e me arrancou dos pensamentos depressivos.

"Profissão?"

"Detetive particular."

Risadas discretas do outro lado da linha.

"Isso existe?"

Pensei numa boa resposta, não encontrei. Então falei a primeira bobagem que me veio à cabeça.

"Tô brincando. Sou advogado."

Um elogio que não ouvi bem e agora a voz era macia, compreensiva.

"O senhor vem acompanhado, doutor?"

Boa pergunta. Respondi que não podia confirmar naquele momento. Ele disse que tudo bem, não tinha problema, meu quarto na Pousada dos Alvos Montes seria para dois de qualquer forma. Ele me parabenizou, explicou como chegar, deixou dois números de celular à disposição. Toda hora repetindo, "doutor", "doutor", esperamos que o doutor goste, inverno em Canela é um convite ao amor e blábláblá. O doutor deseja saber algo mais?

"Não."

"Obrigado, doutor. Estaremos lhe aguardando aqui nos Alvos".

Doutor. Pff.

 

*

2

 

Sou um sujeito que prefere planejar os próximos passos e evitar riscos.

Subir a serra no frio do inverno, sexta à noite, a estrada íngreme e cheia de curvas coberta por neblinas e chuvisqueiro, definitivamente não é o tipo de coisa que eu goste de fazer. Só aceitei porque era o horário possível. E o psiquiatra disse que seria ótimo mudar de ares. Além de que, confesso, tive esperanças de que ela aceitasse vir comigo.

"Fim de semana onde?"

Engoli em seco. A voz de Janete mais que surpresa, era ríspida.

"Canela. Uma pousada."

Silêncio. Respiração forte do outro lado da linha. Impaciência. Frieza.

"Edgar, quantas vezes eu preciso repetir que."

Desliguei. Ela tinha outro, com certeza. Devia ser aquele soldado metido a galã, grandalhão e marombado, seu motorista da patrulha. Odeio esses tipos grandalhões e marombados. Se acham. Garanto que se depilava, o infeliz. As mulheres se derretem para tipos assim. Ou era aquele capitão nanico, metido a poeta, que assumiu o comando da companhia onde ela servia. Tenho pavor desses nanicos metidos a poeta. As mulheres se derretem para tipos assim. Que nojo.

E eu ali. Sozinho. Escrotos, esses sujeitos. Todos escrotos.

Será que tomei os meus remédios hoje? Sempre esqueço.

"Precisa ir a cinco por hora, chê? Estamos num maverick!"

Quer dizer, eu não estava sozinho. Simão veio comigo. Um milagre, ele passear. Outro milagre a mulher dele permitir.

"Tá chovendo."

"Mal e mal uns pingos."

"Tem neblina."

"É cerração."

"Movimento intenso, esta hora."

"Passou só um caminhão."

"Vai-te à..."

*

3

Não foi difícil encontrar a pousada. Era um pouco afastada da cidade, cercada por morros, matos e uma estradinha de chão. Vi a placa estacionamento e entrei com o maverick, quando ouvi uns gritos. Chegou um sujeito esbaforido.

"Ei! Aí não pode deixar o carro. É particular."

Olhei os outros veículos estacionados e entendi. O mais humilde era uma Nissan.

"Sou hóspede.", expliquei. E ante a expressão incrédula do moço, tive que me identificar. "Doutor Edgar Leão, advogado".

Ele olhou uma prancheta que tinha sob o braço. Olhou o maverick. Olhou a prancheta outra vez e pensou um pouco, talvez em dúvida em pedir a minha identidade ali mesmo ou passar a bola para o pessoal da recepção. Enfim, me permitiu estacionar e foi para o interior da pousada.

Era uma casa grande, antiga, toda reformada. Bacana. Telhado branco, como se tivesse coberta de neve. Outras decorações externas induziam a um inverno europeu que, na maioria das vezes, não passa de expectativa turística entre os gaúchos. Mais produto comercial do que realidade.

"Seja bem-vindo doutor Edgar", reconheci a voz do homem atrás do balcão. Um sujeito claro, grisalho, simpático. Mas de olhar duro.

"Obrigado."

"É o seu acompanhante?", apontou Simão. Que passou a mão no bigode e me encarou.

"Exato.", respondi.

"Vou precisar de um documento dos dois para o cadastro."

Entreguei minha carteira de habilitação. Percebi que o sujeito pensou em falar algo, talvez conferir minha OAB, mas desistiu. Simão deu a carteira de brigadiano aposentado.

"Hum. Teremos um policial na pousada. Isto é bom."

"Aposentado, chê. Não me meto mais em entreveros."

"Ah. Está certo, muito certo.", sorriu o dono. Que se apresentou como Alberto.

De repente ele fez uma careta.

"Aqui diz Edgar Leão da Silva."

"Sou eu."

"Tenho seu nome como Edgar de Souza Leão."

"Alguém lhe repassou errado, então."

"Foi sorteio. E o sorteado se chama Edgar de Souza Leão."

Percebi que sua voz se alterava.

"Tudo bem. Podemos ir embora."

Ele suspirou, pensou um pouco.

"Não. Está tudo bem. Vou completar o cadastro."

 

*

4

"Que papo é esse de doutor advogado?"

"Nada importante."

Estávamos descarregando as malas do maverick e Simão segurou meu braço.

"Escuta aqui, vivente! Tá me escondendo algo?"

"Nada. Ganhamos este passeio num sorteio. Aliás, nem ganhamos de verdade, como acabamos de descobrir. Para azar do meu xará."

"Tchê! Tô falando dessa história de Doutor Leão, advogado."

Ele fez uns trejeitos esquisitos para imitar minha voz e comecei a dar gargalhadas.

"Não ri! Tá sofrendo de transtorno de dupla personalidade, além da depressão? Ou estamos aqui a trabalho."

"Nem uma, nem outra. Foi uma bobagem minha. Esquece."

Simão passou os dedos pelo bigode basto, olhando-me atravessado, pegou sua mala e resmungou uns não-sei-quês. Uma senhora nos conduziu às escadas e ao quarto que nos era reservado. Meu amigo quis entrar primeiro e parou na porta.

"A la pucha!"

"Que foi?"

"Só tem uma cama de casal, vivente!"

"Qual o problema?"

"Eu é que não vou dormir empernado contigo! Na secura que anda..."

"Tá, entra aí. Eu durmo no chão esta noite. Mas amanhã é a tua vez".

Cerca de uma hora depois a mesma senhora bateu à porta. O dono da pousada convidava todos os hóspedes para darem um pulo no refeitório, pois ofereceria um queijos e vinhos como presente de inauguração da pousada. Prometemos descer em cinco minutos.

"Como tu ganhou este sorteio?", perguntou Simão.

"Não ganhei. Não ouviu o que o homem disse? Trocaram os nomes."

"E tu não desconfiou de nada?"

"Cavalo dado, não se olha os dentes. Tu mesmo vive me dizendo isso. E eu tinha esperança de trazer Janete."

"Ah. Agora que o bagual me diz que eu era segunda opção."

"Na verdade a terceira. Ou quarta. Mas deixa pra lá."

Descemos.

 

*

 

5

Meu celular tocou no exato instante em que pus meus pés no saguão. Nem acreditei no número que aparecia no identificador de chamadas. Pensei em não atender. Nunca consigo.

"Oi, Janete."

"Oi. Ainda está de pé aquele convite?"

Senti o coração acelerar. E ao mesmo tempo uma raiva incontida.

"Já estou aqui."

"Já? Mas posso pegar meu carro e..."

"Desculpe, estou acompanhado."

Simão me encarou e quis saber quem era. Ninguém, respondi. Óbvio que ele não acreditou. E sabia muito bem quem havia me ligado.

O dono da pousada fez um discurso aos hóspedes, falou de prazer de contar com todos ali para aquele momento especial e etc. Desejou a todos uma bela estadia e um final de semana proveitoso e inesquecível. Apresentou sua sócia, Dona Irene, a senhora que nos conduziu aos quartos e era também a cozinheira da pousada (vocês vão amar suas delícias, ele disse) e os três funcionários da casa. Informou procedimentos, deu dicas de passeio e algumas regras de convivência. E anunciou o coquetel, com queijos, copas, salames e vinhos da serra gaúcha.

Acostumado ao chope, vinho me deixa tonto em poucos cálices. Simão me chama de gaúcho de meia pataca e que chope é coisa de carioca malandro. Não vou repetir os palavrões que costumo dizer nestas horas. Ainda mais quando estou tonto. E só depois de ter bebido o terceiro cálice de tinto que me lembrei dos remédios. Talvez não fosse uma boa ideia misturar antidepressivos com álcool. Agora era tarde.

Quando percebi que todos ao meu redor viravam vultos, que eu amaldiçoava a frieza de Janete e seus possíveis amantes, e as palavras grudavam no céu da boca, decidi subir. Cada degrau da escada pareceu tão íngreme e radical quanto praticar montanhismo. Adequado ao clima da pousada, então tudo bem. No quarto, climatizado, peguei apenas o travesseiro e me deitei - deitei é suave, na verdade eu caí - no chão, ao lado da cama. E não vi mais nada.

No meio da madrugada acordei com dois estrondos. Pareciam tiros. Abri os olhos, a ressaca ainda tornava o mundo ao meu redor uma pasta amarga e difusa. Na cama, Simão roncava feito um trator velho. Deve ter sido isto.

Voltei a dormir.

O problema é que sou pé-frio. Mesmo em quarto climatizado.