Oscar Bessi

Leão entre os alvos 2 (Tudo pode ser alvo. Ou rubro.)

Capítulo II: Tudo pode ser alvo. Ou rubro.



1

Eu corria doidão e pelado no meio da neve, a alvura completa de tudo me ofuscava e eu tinha medo, ou frio, ou desespero, ou tudo junto. Um pinguim com olhar de tarado e inacreditavelmente grande e veloz queria me pegar. Eu fugia e parava e fugia outra vez. Janete me chamava. De onde? Eu olhava para todos os lados sem encontrá-la, chamava de volta, gritava. Nada. Então pensei com meus botões: meu amor é um recheio de nadas, sempre foi. Parei. Não vi mais o pinguim e o mundo ao meu redor era calmo e branco feito propaganda de sabão em pó. Até que uma geleira começou a sangrar gotas de vinho tinto, eu tive náuseas, queria chope, voltei a correr e o pinguim reapareceu bem maior ao meu lado. Ele sorria: eu estava perdido. Em todos os sentidos. Janete soltou uma gargalhada de algum lugar. E um leão marinho pulou no meu pescoço a fim de me devorar e decidi que lutaria até a morte. Tentei arrancar seu bigode.

"Me larga, tchê!"

Acordei com um sonoro tabefe no rosto. Simão me encarava, furioso. "Côsa de loco, vivente! Não sabia que te acordar era tão perigoso!".

Minha cabeça doía vinho, rivotril e outras porcarias.

"Ah, me deixa dormir, Simão. Eu estava tendo um sonho bom."

Ele passou os dedos pelo bigode dolorido.

"Tu precisa tirar essa mulher da cabeça, homem de Deus!"

"Nada de mulher. Era um pinguim. Ia rolar, se tu não atrapalhasse."

"Hein?"

"Deixa pra lá. Boa noite."

"Esquece o sono. Estão nos chamando lá no salão."

"Vai tu. Não quero café."

"Querem todos lá. E não é pra tomar café, houve algum problema."

"Quê? Primeiro, quase me correm por causa do carro. Depois dizem que eu nem devia estar aqui, mas outro cara com um nome quase igual ao meu que eu nem sabia que existia. Agora querem me dar ordens? Tô num quartel, por acaso, e tem toque de alvorada?"

"Não é quartel. Mas tá virando."

"Tá ,Simão, me deixa, por favor. Tenho insônia. Quando consigo dormir, tu ronca ou me chuta."

"Escuta, é sério. Tá cheio de polícia lá embaixo."

Demorei uns bons segundos para alcançar o que o meu sócio e carrasco do sono acabara de dizer.

 

2

 

"Como assim?"

Simão deu de ombros, passou a mão no bigode basto.

"Não entendi direito. Eu desci pro café e dei de cara com o entrevero formado. Pediram que te chamasse, não explicaram muita coisa. Dei meia volta e, por causa desse favor, tive que  aturar teus coices."

"Basta acordar o sujeito com delicadeza."

"Vai sentir a delicadeza do meu mango, na próxima."

"Odeio violência. Cadê meus tênis?"

"No teu pé.", Simão rosnou, irritado. De fato eu tinha dormido sem tirar os calçados e nem me dei conta. Maldito vinho. Malditos remédios.

"Ouvi um zumzum de morte na pousada", completou meu sócio.

Deixei escapar um palavrão. E me lembrei dos tiros. Então eram tiros, afinal? Não. Alguém devia ter enfartado com aquele vinho ruim capaz de implantar uma bigorna gritona no cérebro da gente. Nada de tiros, bobagem. Precisei me recompor em câmera lenta. Tudo doía, o corpo, a cabeça, a alma. O sujeito que vi no espelho era de assustar. Saímos do quarto um bom tempo depois.

"Simão.", murmurei, já na escada.

"Hum."

"Você ronca demais. Vou pedir para me trocarem de quarto."

Ele começou um palavrão que precisou cortar na metade. A cozinheira e sócia da pousada subias as escadas. O sujeito ao lado dela, jaqueta de couro, barba por fazer e óculos escuros sem qualquer necessidade - nem lá fora havia sol - eu nem precisei perguntar para saber que era um inspetor novato. Eles adoram forçar na imagem de tira cinematográfico.

Ah. Também já fui assim, iludido. Durou pouco. Pena, não era de todo ruim, acreditar.

Deu impressão de que só esperavam a nossa chegada para começar a reunião. Os hóspedes estavam sentados em torno das mesas do refeitório, olhos arregalados, alguns aos cochichos. O buffet do café intacto. Uns quantos nos encararam em silêncio. Em pé, dois grupos de policiais, os militares e os civis, sem se misturarem. Mas em tal balbúrdia que me lembrou um estádio de futebol em final de campeonato.

Ou era a minha cabeça ecoando mil bigornas.

"Não acredito!"

Levei um susto. E quase repeti a mesma frase.

"Ah, não!", foi o só que consegui responder, e bati com a mão na minha testa com vontade. Se havia um sujeito neste mundo arrependido de estar num lugar, naquele instante, era eu.

Se pudesse, sairia correndo.

 

3

 

Julio pegou o meu braço, nem olhou para o Simão e me empurrou porta afora, até o estacionamento. Conferiu se estávamos distantes o suficiente da pousada. Uns policiais espiaram na porta e ele mandou, com um gesto, que entrassem de volta. Depois me encarou, irritado, acusador. Houve um tempo em que aquela carranca foi o prelúdio do meu desespero. Porque logo depois o pai acreditaria apenas nele, em qualquer situação, e era algo que me doía no peito.

"O que tu tem a ver com essa porcaria toda aí, Edgar?"

"Que porcaria?"

"Não te faz!"

"O quê tu tá fazendo aqui?"

"Eu é que te pergunto."

"Não posso passear?"

"Não sou idiota, cara. Qual é a tua relação com essa barbaridade?"

"Se me explicar que barbaridade é, talvez eu te fale."

"Tu e aquele teu amigo bigodudo não estão aqui de graça."

Eu tive que rir.

"Pior é que estamos. Por engano, mas estamos."

"Tô falando sério, Edgar!"

"Eu também. E tu? Em férias, ou te chutaram da capital?"

"Nem uma, nem outra. Estou cedido à DHPP."

"Que não fica em Canela. Ou saiu lá do Palácio da Polícia."

"Pedi à chefia que me incluísse na Operação Inverno, como reforço à região turística da Serra."

"Hum. Precisando de diárias. Delegados também têm dívidas?"

Ele suspirou, olhou para os lados, baixou a cabeça e a voz.

"Vamos ter um filho. E quero sair de Porto Alegre."

Silêncio. Frio, vento, chuvisqueiro. Eu o parabenizei em voz miúda. Ele agradeceu com um grunhido, apertamos as mãos, tudo muito rápido e sem jeito.

Era estranho. Eu e Júlio não tínhamos ódio, um pelo outro. Nem amor. Não éramos irmãos, como alguns pensavam. Ele era meu primo e um dos meus melhores amigos até os pais deles morrerem num desastre de automóvel, quando foi morar lá em casa e as coisas se complicaram. O pai parecia gostar mais dele. O adolescente que estudava, que dava certo, que inspirava orgulho. Meu exato contrário.

Mas a encrenca mesmo, entre nós, foi uma desavença de amor.

 

4

 

"Tá, vamos falar sério."

Eu sorri.

"Mas eu estou falando sério. Ganhei num sorteio a estadia para a inauguração aqui da pousada."

Júlio parou para pensar e ficou me encarando.

"Difícil de acreditar."

"Também achei. Nunca ganho nada. Aliás, não vais acreditar, mas cheguei aqui e o prêmio era para outro Edgar Leão, não eu. Pode?"

"Aham. Aí traz o Simão pra tomar comer founde na Serra?"

"Fazer o quê. Rema-rema-rema, cada um com seus problemas. Sigo solteiro."

"Conhecia o casal?"

"Que casal?"

Ele fez um gesto impaciente de cabeça, braços e mãos. Achei que iria me estrangular.

"O casal que se matou esta noite, camraba!"

Eu fiquei sinceramente surpreso.

"Casal que se matou?"

Julio coçou o nariz como fazia quando era menino e não admitia o erro.

"O marido matou a mulher, eu quis dizer. Pelo menos é o que achamos."

"Bah."

"Conhecia ou não?"

"Cara, é sério, não conheço ninguém neste lugar. Por que não acredita?"

Ele sorriu, cínico.

"Ainda pergunta", ele disse, chegou mais perto e segurou o meu braço outra vez. Do que era aquele bafo, que se misturava com os sentidos tortos da minha ressaca?  "Vamos lá, então. Quero ver o que tem no teu quarto."

Puxei meu braço de volta.

"Não é uma boa ideia", falei.

E só quando ele deu meia-volta, a vibrar como se quem marca um gol no final da partida, e entrou de novo na pousada, lembrei que seria bom ter esclarecido o que eu quis dizer. Sei lá. Só não queria que ele visse aquele quarto com apenas uma cama de casal e pensasse que eu e o Simão...

Ah. Ele que pensasse o que quisesse.

Decidi ir atrás de Júlio e saber sobre a morte do casal. Além de pedir desculpas ao Simão, afinal, não foi o seu ronco que me acordou na madrugada. Foram tiros mesmo.

Minha cabeça doía. Estava na hora dos remédios, será?

Ô, eu. Sempre ímã.

 

5

 

Dentro da pousada, Simão me lançou um olhar significativo. Sim, teríamos problemas, respondi em silêncio. Ele balançou a cabeça e olhou para o céu. Sei o que estava pensando. Devia ter ficado em casa, com a sua prenda velha, tomando um amargo bem tranquilo e mascando rapadura. Foi na minha conversa e se estrepou.

Subi as escadas. Ouvi as risadas de Júlio e elas vinham de dentro do meu quarto. Era um óbvio deboche à cama de casal e ao fato de eu e Simão estarmos hospedados no mesmo quarto. Indignado, tentei entrar, mas fui barrado na porta pela paródia cabocla de Mad Max.

"Peraí, brother."

Brother?

"Não pode entrar aqui. Local de crime."

"Local de crime o quê, guri! Aqui é o meu quarto!", eu fiquei ainda mais fulo, gritei e o empurrei. O sujeito cambaleou e quase caiu por cima da cama. Além de balaqueiro, despreparado e fraco. Só pose. Aliás, como todos os balaqueiros que conheço na vida.

"Calma, calma! Ele é o meu irmão."

Se Júlio não berrasse a tempo, o outro policial, mais veterano, que revistava com ele nosso armário e as malas - mala é um pouco forçado, no meu caso, já que trouxe apenas a minha mochila velha de guerra - teria me juntado com tudo contra a parede. Era gordinho, mas alto e bem ágil.

"Não somos irmãos.", eu disse apenas, bufando.

"Ele é do casal que tá neste quarto, chefe?", disse o Mad Max, já em pé, como se chada tivesse acontecido, cheio de bossa e ironia.

Júlio me encarou. Ria da minha cara.

"É."

"Não tem o direito de mexer nas nossas coisas!", gritei.

"Estou numa cena de crime."

"Qual crime? Me diz? Tem um cadáver aí na mochila, por acaso?"

Julio atirou minhas roupas no chão e veio até onde eu estava. Praticamente grudou o nariz no meu. Cebola. Tinha bafo de cebola.

"Tu tá nessa até o pescoço. Eu sinto."

"Tá sentindo errado."

"Não fica querendo me enganar que não adianta."

"Eu nem lembro que tu existe, como vou pensar em te enganar?"

"Bebum!"

Meu hálito devia estar me entregando, ainda.

"Chefe!"

Surgiu atrás de mim uma policial quarentona, com gorro na cabeça, tão agasalhada que as roupas dobravam o seu peso, que já não era pouco. Mas ela tinha um ar de gente boa e me cumprimentou com um sorriso. Não sei se retribuí, ainda estava meio tonto.

"Fala", rosnou Júlio, contrariado.

"Quero mostrar uma coisa pro senhor."

O delegado a seguiu. Eu esperei um pouco e fui atrás. Na escada, vi o olhar do Simão, na porta do refeitório, desesperado. Pedia para que eu não nos metesse naquela encrenca. Mal sabia ele que, graças à implicância de Júlio, já estávamos metidos nela até o pescoço.

O quarto onde as vítimas estavam ficava no terceiro e último andar do casarão. Dois PMs estavam lá dentro e falavam sobre futebol. Um deles fumava e o delegado pediu que fosse fumar lá fora, para não comprometer a cena do crime. Ele aquiesceu e pediu desculpas. Uma policial loira e jovem tirava fotos.

Os dois corpos estavam vestidos sobre a cama. O sangue rubro escurecia as roupas, a cama e se misturava à alvura lençol térmico até chegar ao chão. Dois tiros na cabeça.

"Tudo indica que o senhor tinha razão. Homicídio seguido de suicídio, a princípio. Caso passional.", comentou a inspetora.

Júlio concordou. E pediu que mandassem toda a imprensa para a delegacia, onde daria uma coletiva sobre o crime.

Eu levei um belo minuto observando a cena antes de deixar escapar.

"Não tem suicídio aqui, maninho."

Júlio me encarou, entre surpreso e furioso.

"Só assassinato.", completei.

E uma música do Black Sabbath me veio à cabeça.