Capitulo III - As aparências nem sempre enganam1
Júlio me encarou furioso. Ele era o delegado, o menino perfeito, não suportava ser desmoralizado na frente qualquer um, ainda mais se fossem logo os seus subordinados. Não era minha intenção. Falei por falar. Mas bastava um olhar ligeiro sobre a cena do crime para tirar outras conclusões. Só que Júlio já tinha decorado sua fala para a imprensa, eu o conhecia bem. Era assim quando ele apresentava sua versão dos fatos ao meu pai e o velho sempre acreditava nele, por mais que eu esperneasse. Júlio se acostumou mal. E, nalguns momentos, dava a impressão de que a vida lhe devia obediência, ou pelo menos o favor de ficar calada e baixar a cabeça, afinal lhe roubara os pais.
Vi que a loira me olhou e disfarçou o sorriso. A outra policial ficou me encarando com uma curiosidade sincera. Mad Max abriu os braços e balançou a cabeça, a olhar seu chefe sob os óculos escuros. Júlio era uma pedra. Bufava. Mas não gritou.
"Por quê?"
"O tiro acertou a mulher no peito. E o lado esquerdo da cabeça do homem. O problema é que ele é canhoto."
"Quem te disse?"
"O relógio na mão direita é um indício."
"Muitos destros usam relógio na mão direita."
"Talvez mulheres casadas, que são obrigadas a usar aliança na mão esquerda e julgam que o relógio no mesmo lado não combina. Mas concordo, melhor deixar a perícia mostrar. Porém, há outros indícios de que ele é canhoto."
Ele riu, Mad Max também. E o PM. As policiais femininas não (adoro as mulheres!).
"Posso saber quais?"
"Pensei que ainda lembrava as aulas na academia, Doutor. Posição da xícara. Olhe. A caneta ao lado do telefone. Vê o cabelo dela? Molhado, o dele não. Apenas ela tomou banho, o que não é de estranhar, visto que, no geral, as mulheres são mil vezes mais asseadas que os homens. Ao lado do telefone, uma anotação que só diz água. Eles estavam no coquetel, ele ligou para a recepção (que tal mandar o distinto aí chegar o teor da ligação feita aqui do quarto, em vez de ele ficar me encarando feito uma estátua?) e perguntou o que a mulher queria. Só água. Ele anotou porque teve impressão de que ela queria mais, então a recepção atendeu e ele fez o pedido: chá, para ele, água para a esposa."
Júlio olhou o quarto, a xícara, o telefone de cabeceira, a anotação, os cabelos da mulher. Chamou o policial civil da jaqueta e óculos e sussurrou algo para que eu não ouvisse. Júlio tinha dificuldade em me dar razão. Não era assim, antes de morarmos juntos.
"Bom, agora cai fora daqui, Agatha Christie. Vou anotar os dados para interrogatório."
"Tá bom."
"Mas crime passional seguido de suicídio segue sendo uma hipótese. Teu olho não é perícia."
"Nem falei isto, meu senhor."
A loira me encarou. Bonita, ela.
"Cai fora!", rosnou Júlio.
Desci as escadas. No refeitório, Simão me olhou enviesado por cima do bigodão. Mais um disposto a me estrangular.
2
O policial veterano - Mathias - que remexia meu armário desceu as escadas, entrou no refeitório e avisou a todos que poderiam ficar à vontade, desde que não fossem embora ou não subissem aos quartos. Muxoxo geral. Depois ele falou com o grupo de PMs que foram embora, deixando apenas uma dupla, que passou a preencher um calhamaço de documentos. O estado e suas burocracias. Nada funciona, mas papelada não falta.
Aproveitei para conversar com Simão.
"Foi duplo homicídio."
"Hum. Bom que tem bastante polícia aqui."
"O Júlio já estava encaminhando uma entrevista induzindo que era homicídio seguido de suicídio."
"E daí, tchê? Deixa o homem."
"Temos um assassino, ou assassina, aqui dentro. Quem sabe até mais de um."
"Ih...Lá vem ele."
"Estou achando que fomos atraídos para uma ratoeira. E que mais alguém pode morrer."
Simão caiu na gargalhada.
"Vivente, tu não tens que tomar remédio pra cabeça. Basta parar de ver esses seriados malucos na tv."
"CSI não é maluco."
"Então de onde tu me tirou essa besteira, tchê?"
Pensei um pouco. Veio a imagem de Alberto irritado, ou nervoso, na noite anterior, ao descobrir que eu não era quem deveria estar ali. Ele precisava que fosse o outro Edgar Leão? Ah, paranóia. Nada a ver. Por que alguém inauguraria uma pousada em Canela apenas para matar pessoas? Impossível.
Ou não?
3
Júlio desceu correndo e me chamou para fora da pousada.
"O que houve aqui ontem?"
"Hum. Quer minha ajuda oficial, delegado?"
"Tá, sem frescura. Pode ajudar sim. Mas não vou te pegar nada."
"Não precisa. Te ver pedindo minha ajuda já é um pagamento."
"Como assim?"
"Esquece. Ontem houve uma recepção com queijos e vinhos no refeitório, por volta das 22h. O dono comemorava a inauguração da pousada. Cada um desses hóspedes que hoje está aqui ganhou num sorteio este final de semana de inauguração."
"Como foi o sorteio?"
"Boa pergunta. Um dia me ligaram, topei e cá estou. Na chegada, o Alberto descobriu que não era eu, havia sido engano. Mas não quis voltar atrás e me manda de volta pra casa."
"Quer dizer que tu e o Simão estão realmente passeando? Difícil de acreditar."
"Mas é."
4
Júlio entrou, convicto de que eu estava escondendo algo. Problema dele. Fui para o Maverick, abri a porta e sentei no banco do carona. Retirei meu Magnum do porta-luvas e enfiei na cinta. Poderia precisar dele, afinal, já tínhamos dois mortos na pousada, e a tiros. Abri meu estojo de cd. Precisava ouvir um blues, um jazz, algo que me fizesse pensar. Eu andava tendo lapsos de memória, o que não é nada bom para um detetive particular. Eu tentava me lembrar dos hóspedes. Houve um momento em que Alberto, o dono da pousada, pediu que cada um se apresentasse. Eu precisava lembrar nomes e o que faziam, de onde eram, etc. Mas nada me vinha à cabeça. Maldito vinho.
Saí do carro e encontrei Simão.
"Lembra o que cada um disse, ao se apresentar, ontem à noite?"
Simão sorriu.
"Tu não lembra, bebum?"
"Vai te catar Simão! Sim ou não?"
Ele passou a mão pelo bigode, o olho num brilho de esperteza.
"Lembro tudo."
"Então me conta."
"Conto. Mas com uma condição."
"Qual?"
"Assim que dermos o nosso depoimento, vamos embora."
Respirei fundo. Júlio tinha me pedido ajuda. Júlio, o bom, o queridinho do meu pai. Eu não podia perder aquela chance.
"Tá."
Simão ia falar algo quando Júlio apareceu na porta e me chamou.
"Tenho algo pra te mostrar!"
Um instante antes de entrar, o vulto que desembarcava de um carro, em frente à pousada, me chamou a atenção.
Janete?
