Oscar Bessi

Leão entre os alvos 4 (Cores difusas)

Capítulo 4 - Cores difusas

 

Ela se aproximou. Estava séria.

Não, irritada.

"Sabia que você tinha algo a ver com isso."

Mais uma a duvidar de mim, pensei. Um detetive não pode ter seu passeio romântico na serra?

"O que faz aqui?", perguntei.

"Esta pergunta é minha. Tô na minha folga. Bico."

"Bico?"

"Faço alguns frila pro Correio do Povo."

"Frila?"

"Freelancer,"

"Sei que a Praça da Alfândega está um caos. Mas eles precisam de segurança aqui?"

"Estou na faculdade de jornalismo, lembra?"

"Nem teria como. Nunca me falou."

"E a sua nova namorada? Onde anda?"

"Lá dentro. É o Simão."

"Quê?"

"Não, calma, ele não é a minha nova namorada. Apenas quem veio comigo."

Janete ficou ainda mais alterada.

"Quer dizer que o convite era pra investigar um caso, não um passeio romântico em Canela?"

"Olha, eu."

Desisti de explicar. Feito Júlio, ela não acreditaria.

"Quer sair da minha frente? Preciso fazer minha matéria. O jornal quer esses dados o mais breve possível para o site. O nosso é o mais completo e atualizado, sabia?"

Não respondi. Olhei para os lados. Nenhum policial prestava atenção em mim.

"Te dou todos os dados. Mas você vai ter que me ajudar. O que acha?"

"Quero falar com o delegado, não contigo.", ela rosnou.

"Ele não quer saber de imprensa aqui. É o Júlio."

"Júlio? Em Canela?"

"Cedido pelo DHPP. Operação Inverno."

"Hum. Achei que só a plebe da segurança pública corria atrás de diárias."

"Vai ser pai. Precisa de grana."

Ao contrário dos homens, mulheres sempre sorriem ao ouvir estas notícias.

"Vai ser titio, Edgar? Parabéns!"

"Primo. Já te disse várias vezes que Júlio não é meu irmão."

"Mas é como se fosse."

"Ele dará uma coletiva fajuta lá na delegacia. E vai demorar. Quer esperar, como os outros?"

Ela não pensou muito.

"Tá. O que tem pra me dizer?"

Simão vinha na nossa direção, esbaforido.

"Veremos. Talvez muito, talvez nada."

 

2

 

Eu havia pedido ao meu sócio que tomasse nota dos hóspedes da pousada. Porque minha cabeça ainda sofrendo a mistura de tarjas pretas com álcool não lembrava nada. Ele veio com um papel na mão e aqueles garranchos de médico. Depois das explicações de Janete ao meu amigo bigodudo, Simão começou a falar sobre o que tinha conseguido.

"O xiru que bateu com as botas era Mateus Madelvesnki. A mulher, apesar da aparência bem mais jovem, era mesmo a esposa dele, Maria Isabel. Mateus era dono da Empreiteira Mega. Não te diz nada?"

"Não.", confessei.

"Há um mês esteve envolvida num desses escândalos de corrupção, não lembro qual.", disse Janete.

"Pôs bem. Saiu no noticiário que fizeram serviços para um governo aí, mas a sede da empresa era num boteco em Caxias. Fantasma. No quarto ao lado estava a irmã dele, Dora, e o marido, Heitor."

"Família sortuda.", observei. "Eu, quando ganho algo num sorteio, foi engano. Eles ganharam dois prêmios de estadia para a família toda. Interessante."

"A sorte não para por aí, tchê. Há outro casal que era amigo das vítimas há muitos anos, mas trabalham no ramo de confecções. Têm uma loja em Farroupilha. Estão muito abalados com o que aconteceu e disseram que Seu Mateus jamais faria uma coisa dessas."

"Hum. É o que sempre dizem. Quem mais?"

Janete interrompeu.

"Diz uma coisa, Edgar. Tu também não estavas aqui? Por que o Simão precisa te dizer quem são os hóspedes?"

"Melhor não te explicar. Continue, meu amigo."

"Com os outros não consegui conversar, mas tenho os nomes aqui na lista. É um casal de idosos de Porto Alegre, um senhor que se hospedou com um rapaz e não sei se é um casal ou se são parentes, ou sócios. Estão no mesmo quarto. Pai e filho não parecem, são muito diferentes. Há um grupo quatro de meninas alegres, certamente universitárias, ou colegas de empresa. Saíram pra balada ontem após o coquetel e chegaram tarde. Não sei dizer se antes ou depois das mortes. E um sujeito caladão, que chegou bem tarde, quando Dona Irene já limpava o refeitório. Tem também uma mulher sozinha, que confessou estar em férias conjugais. Brigou com o marido. Uma das meninas que espalhou, pois ela iria junto pra noite, mas na última hora desistiu de acompanhá-las."

"Hum. E o pessoal da pousada?"

"Nem pesquisei, pediu só os hóspedes."

"Quero o nome completo de Alberto, Irene e do cara que me barrou no estacionamento. Depois passa pra Janete."

"Pra mim?"

"Exato. Manda uma mensagem agora pro jornal e anuncia duplo homicídio na serra. Em pousada que promoveu um sorteio onde dava um final de semana grátis para a sua inauguração."

"Ah. Bom saber que me convidou para um passeio de graça, coisa de sorteio."

"Diga que há indícios de duplo homicídio, mas a polícia também trabalha com assassinato seguido de suicídio."

"É o que o delegado pensa?"

"Ele não pensa."

Toda vez que falo no dito, ele solta o apito.

"Edgar! Tô te chamando, pô!"

Júlio gritou na janela do quarto onde o crime aconteceu. Por sorte, não reconheceu Janete.

"Depois, Janete, preciso que pesquise todos os nomes que o Simão te der. Ficha de antecedentes policiais, internet, conexões, redes sociais, tudo. Acredito que temos um assassino aqui."

Ele resmungou algo que não entendi.

Júlio chamou outra vez e entrei na pousada.

 

 

3

 

"Pode ter sido latrocínio, se a tua teoria estiver certa."

Júlio falou baixo. Já não tinha a mesma hostilidade comigo. Parecia se convencer de que sua teoria cada vez mais se fragilizava, conforme os peritos trabalhavam na cena do crime e lhe repassavam algumas informações extraoficiais. Porém, ela não poderia usá-las antes que o laudo assinado e carimbado chegasse, o que levaria algumas boas semanas. Mas já lhe dava alguma luz para os próximos passos. É assim que funciona uma investigação, diferente dos filmes e seriados da TV, onde tudo se resolve de imediato e o vilão vai preso na hora.

"Olhe aqui."

Ele me levou até à janela. Do lado de fora, estacionamento e, em seguida, mato.

"É possível subir por uma escada e entrar no quarto. A janela não estava trancada, mesmo com o frio."

"É o vidro que segura o ar quente, não a fechadura."

"Não precisa da tua ironia, Edgar. Só digo que é mais uma possibilidade. Remota, mas é."

"Nem tanto. Já ouviu falar de Parkour?"

"O que é isso?"

"Uma habilidade desenvolvida para aproveitar as possibilidades do corpo humano e os objetos ao redor. É usada como instrumento de defesa, escaladas, saídas rápidas, entradas consideradas impossíveis. Lutadores de artes marciais usam muito isto. Se observar bem, há como, com saltos e elasticidade física, escalar a parede e chegar até a janela. O Parkur é considerado um misto de arte, luta e esporte e está cada vez mais popular entre os jovens de hoje."

Júlio soltou uma gargalhada.

"Quer dizer que devemos colocar o Homem-aranha, o Homem-elástico e o Bruce Lee entre os suspeitos?"

"Coloque quem quiser. Só estou te ajudando."

Saí do quarto. A loira me olhou outra vez.

Já não parecia mais tão bonita, com Janete por perto.

 

4

 

Resolvi me misturar entre os hóspedes, no refeitório. O PM seguia fazendo anotações, pegando e devolvendo documentos, preenchendo mil papéis. As moçoilas falantes estavam numa mesa ao canto, fazendo um selfie.

"Oi. Posso ficar por aqui?"

Elas se olharam. Duas riram, duas fizeram caretas.

"Claro!", disse uma moreninha simpática, que se apresentou como Suzy.

"De Suzana?", perguntei.

Elas riram.

"Não, De Suzy mesmo."

"São estudantes em férias?"

"Não.", respondeu uma mulata de beleza estonteante.

"Ah. Qual o seu nome?"

"Emily."

"Prazer, Leão."

Risadinhas. Das outras.

"E esse crime, hein? Vocês ouviram algo durante à noite? Porque eu, vou contar pra vocês, caí duro de tanto vinho e não percebi nada."

Silêncio.

Emily levantou da cadeira e aproximou seu rosto do meu. Tinha um perfume bom, apesar de um pouco exagerado.

"Ninguém viu nada, já dissemos. Quantos depoimentos vocês querem?"

"Não sou policial.", sorri. "Sou hóspede como vocês."

Neste momento vi Júlio descer as escadas às pressas, procurar algo na rua e depois no refeitório, até que me encontrou e fez uma careta de raiva. Falava ao celular. E sua voz tinha um tom submisso, covarde, pressionado que desconheci.