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Capítulo 5 - Leão na jaula
1
Júlio estava irritado e me cobria de desaforos, o que não era novidade. Tinha esse costume desde menino. Queria saber por que eu tinha feito a notícia vazar para o Correio do Povo. Agora o Secretário de Segurança e o Chefe de Polícia estavam no seu pescoço. E o prefeito da cidade. Crime passional passa, gera comoção e não afeta os negócios. Mas duplo homicídio apavora e afugenta turistas. Será que eu não percebia?
"Levante as mãos, Edgar."
"Hein?"
"Reginaldo, reviste esse cara."
Reginaldo era o Mad Max. Custei a acreditar que Júlio estava fazendo aquilo comigo só de raiva. E o policial balaqueiro me enfiou a mão por tudo, com força proposital, até encontrar meu Magnum .357 enfiado na cinta.
"Aqui, chefe!".
Júlio sorriu triunfante. Do mesmo jeito quando o pai me colocava de castigo por coisas que ele tinha feito.
"Algema e leva pra DP.", falou.
Claro que eu não aceitaria um absurdo daqueles. Empurrei o Mad Max, quer dizer, Reginaldo, mas logo um grupo saiu de não sei onde e se embolou sobre o meu corpo. Senti as algemas doerem ao apertar meus pulsos com gana. Levei uns pontapés e tabefes por todo o lado. Saí carregado para o camburão.
Simão me encarava de longe, incrédulo. Janete tirava fotos.
Eu mereço. Até quando tenho sorte num sorteio, dou azar.
2
O tumulto foi grande na delegacia. Todos queriam uma foto minha e os policiais não tinham pressa alguma, faziam questão de me expor. Fui jogado numa cela minúscula e vazia - ainda bem, não estava a fim de dormir com algum estuprador ou algo do gênero. "Entra pra jaula, Leãozinho!", ironizou o Mad Reinaldo Max. Pensei em cuspir na cara dele, mas não valeria a pena. Meu corpo já estava todo doído.
Minutos depois, ouvi Júlio gritar para que cessasse a balbúrdia a fim de que ele pudesse iniciar a coletiva.
O quase silêncio me permitiu que ouvisse sua versão para os fatos. Tudo indicava ser crime passional ou algum acerto de contas, afirmou, pois nada havia sido levado das vítimas. A hipótese de suicídio seguido homicídio não fora descartada, mas a prisão de um suspeito armado - suspeito armado, Júlio?, mas que porcaria é essa? -, que também era hóspede da pousada, abria novas linhas de investigação. Ainda complementou que todos que estavam na Pousada Alvos Montes ganharam um final de semana inteiramente grátis, presente de Alfredo para marcar a inauguração do seu estabelecimento. Este suspeito, disse o canalha do meu primo, não estava entre os sorteados e estavam averiguando o real motivo de ele estar ali.
Eu era o suspeito. Mas que desgraçado!
"Delegado, foram publicados boatos na internet de que o suspeito é seu irmão. O senhor confirma?"
"Eu não tenho irmão.", ele respondeu, seco, e encerrou a entrevista dizendo que tudo estava sob controle, era fato isolado e tanto a população quanto os turistas podiam contar com a segurança pública para seguir em paz suas programações de férias. Voltou o burburinho.
3
Deve ter passado mais de hora até Simão aparecer. Que me pareceu um dia inteiro. O tempo, trancado numa gaiola, é bem mais lento.
"Até que enfim. Quando vão me tirar daqui?"
"Não vão."
"Quê?"
"A mídia sossegou, tua cara já saiu em todos os canais como um falso advogado que entrou armado e é suspeito de matar um casal e forjar a cena do crime."
"Mas eu..."
"Eu sei, Leão, eu sei. Mas ele tinham que dar uma resposta à imprensa. E a culpa é tua!"
"Como assim, a culpa é minha?"
"Que ideia de jerico foi aquela de mandar a Janete vazar a notícia?"
"O Júlio está com medo de ser afastado daqui e perder as diárias. Ia abafar o caso como passional, briga de casal, essas coisas. E não é!"
"E o que tu tens a ver com isso, vivente?"
Fiquei sem resposta. De fato, eu não tinha nada a ver com aquilo. Por que fui me meter? Na verdade eu sabia. Coisas da adolescência. Só que o tiro saiu pela culatra.
"Simão."
"Hum?"
"Vou investigar daqui. Preciso daquelas informações."
"Investigar daqui? Tá achando que é o Sherlock, que pode desvendar crimes sem sair de casa?"
"Nero Wolfe."
"Quem?"
"Nero Wolfe, Simão. Personagem de Rex Stout. Ele que desvendava crimes sem sair de casa. E você será meu Archie Goodwin."
"Vou ser arco de ninguém, ô bagual!"
"Só preciso que me traga os dados. O resto é comigo. E Janete?"
"Não vi mais. Deve ter voltado pra Porto Alegre."
Dei um murro na grade. Sem Janete, eu não teria acesso a informação alguma.
"Oi. Atrapalho?"
Era a inspetora loira que fotografava a cena do crime. Tinha um sorriso lindo. "Claro que não", respondi. "Meu amigo já estava de saída".
Simão bufou, torceu o bigode, balançou e cabeça e se foi. Gritei para que me trouxesse um sanduíche de mortadela. Tenho certeza de que ele ouviu, mas fez de conta que não.
"Precisando de algo?", ela sorriu.
"Se puder me dar as chaves desta gaiola, agradeço."
"Creio que este seja um pedido impossível."
"Adoro as coisas impossíveis."
"Bom, já vi que está bem. Estarei de plantão esta noite, qualquer coisa me chame."
"Qual seu nome?"
"Tatiana."
"Lindo nome. Prazer, Leão. Mas eu não mordo."
Ela saiu com um sorriso maroto e aquele olhar brejeiro. Só que eu estava fulo demais com Janete para me permitir seduzir. Quer dizer, seduzir por completo.
Não demorou muito para que Simão voltasse correndo para a delegacia e se amparasse nas grades para poder recuperar o fôlego.
"O que é isso, homem? Viu fantasma?"
"Quase.", ele murmurou, ofegante. "É que... É que..."
"É que o quê? Fala, Simão!"
"Outra morte... Na pousada..."
