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Capítulo 6 - álbum de figurinhas
1
Simão demorou alguns segundos até recuperar o ar.
"Júlio e bagualada toda já estão lá. Mas não se sabe ainda se é crime ou morte natural."
"Quem foi a vítima, desta vez?"
"Lembra aquele casal de idosos?"
"Hum."
"Ah. Esqueci que ficou de porre com duas gotas de vinho."
"Sou sensível. E só pensei alto, não quis dizer que não lembro. Eles estavam no refeitório pela manhã."
"A senhora foi deitar, descansar um pouco agora à tarde. Eles seriam os primeiros a depor por causa da idade. Nisto teu irmão é um cara bacana, chê."
"Vai te catar. E não tenho irmão. Conta sobre o crime."
"Mas que barbaridade, tu me é surdo, vivente? Já te disse, pode não ser crime. O marido veio à delegacia, deu seu depoimento e quando voltou, achou que a esposa estava dormindo. Foi dar um beijo nela e percebeu que estava morta."
"Dar um beijo?"
"É. Dar um beijo."
"Coisa estranha."
"O que há de estranho no marido beijar sua mulher?"
"Depois de tanto tempo de casados? Duvido que seja normal. Ele matou a esposa."
"Para, Leão! Agora as pessoas não podem ter carinho, tem que ser uma esponja seca, feito tu?"
"Ô. Esponja seca. Essa é nova."
"Rançosa, mas sem nada de bom nem de ruim, nem sujo ou de limpo pra se extrair. Vou te dizer uma côsa bem certa, guri: é o tempo que te ensina sobre o tempo que perdeu nesta vida."
"Boa filosofia. Aprendeu isso lá em Pelotas, comendo docinho?"
"Mas que bah! Tá, deixa eu te contar. Afinal, botei meus bofes pra fora e corri feio lebre pra isso, chê! Preciso de contar. Ouvi uma conversa do Júlio. Tive que ter cautela, pois eles me viam e paravam de falar. Acontece que ele também achou estranho. Pode ter sido morte natural, coração, essas coisas. Mas ela pode ter sido asfixiada por um travesseiro."
"Hum. O que o marido dela disse no depoimento?"
"E como vou saber?"
"Descobre."
"De que jeito?"
"Te vira. És o filósofo dos pampas, não? Faz um mate aí pra rapaziada e faz brotar o que eu quero saber."
Simão passou os dedos pelo bigode, fulo da vida. Deu meia volta e nem se despediu.
"Ah, e me chama a loirinha aí do plantão. Quero ter um papo com ela.", gritei, antes que ele sumisse.
2
"O que tu quer?"
Não veio a loira, veio o Mad Max. Simão me sacaneou.
"Não era contigo, Reinaldo."
"Reginaldo."
Eu sorri.
"Quando era novinho assim, na polícia, também não tirava os óculos escuros. A gente se acha grande coisa, né?"
Ele tirou os óculos. Estava com uma conjuntivite feia. Fui obrigado a pedir desculpas, ele deu meia volta e sumiu. Uma hora depois chegou Júlio e sua turma, em algazarra. Pelo jeito a imprensa não sabia de nada da nova morte na pousada. Só ouvi vozes e conversas de policiais. O tumulto foi baixando, uma voz ou outra foi se despedindo, até que o silêncio voltou a reinar. Eu ouvia apenas o barulho de alguém digitando num teclado de computador. Podia ser Tatiana, mas podia ser Reginaldo Mad Max, então decidi não chamar. Fiquei tentando lembrar a noite anterior. Difícil. Minha cabeça voltou a doer. E já havia passado da hora de tomar meus remédios.
Creio que, de tanto pensar e não chegar a lugar algum, adormeci sentado, a cabeça enfiada nas mãos. Acordei no susto quando alguém bateu, forte e repetidas vezes, com um canivete nas grades.
Era Júlio. Comia uma laranja.
"Cansado, bandidão?"
Levantei de um salto, irritado, e me grudei nas grades.
"Seu imbecil. Qual é a tua?"
"Devolvi a besteira que fez."
"Minha cara saiu nos jornais como criminoso."
"Bom, né? Detetive particular tem que ter fama de mau. E, aliás, até vai ficar mais fácil pra ti, agora, te infiltrar no submundo. És um assassino de respeito."
Juro que tive vontade de pular no pescoço dele.
"E não mandei fazer o caso vazar antes da minha coletiva. Ouvi um monte de desaforo da chefia por tua causa. Quase fez com que me tirassem daqui.", ele completou, boca cheia de laranja.
"Se o pai tivesse vivo, essa ele não iria aprovar isto. Nem te aplaudir. Tenho certeza."
"Olha, sei não. Ele sempre te achou com potencial pra vagabundo, lembra?"
Perdi o controle. Comecei a tentar acertá-lo através das grades, gritar, dar socos, pontapés, chorar. Tive um surto. A policial loira veio correndo, queria saber o que estava acontecendo ali. Júlio ria. Eu me dei conta de que perdia o controle sobre mim, uma vertigem quase me fez cair e recuei, me amparando nas paredes, até sentar no catre. Minhas mãos tremiam. Eu suava.
Percebi que eles entraram na cela, mas tudo ficou turvo. Encontrei forças para segurar o braço de Júlio, pedir que ele chamasse Simão, que Simão trouxesse meus remédios, e não vi mais nada.
3
Acordei com a suavidade de mãos femininas me fazendo um carinho na testa, nos cabelos, no rosto. Não abri os olhos. Há muito tempo eu não sentia aquele prazer de ser tocado com suavidade. Melhor que qualquer sertralina ou fluoxetina do mundo Até que sorri e, mesmo sem abrir os olhous, resolvi agradecer, na esperança de que ela não parasse. Tinha certeza que aquela loira tinha ido com a minha cara.
"Obrigado, Tati."
Um belo tabefe explodiu no meu rosto.
"Que Tati?!"
Abri os olhos. Era Janete, fardada e furiosa.
"Precisava me bater?"
"Quem é Tati?"
"Eu falei Tati?"
"Falou!"
"Tati e Janete soa muito parecidos. Quer ver? Fala os dois nomes assim, bem ligeirinho. Tati, Janete, Tati, Neti, Tati, Téti, Ta..."
"Tá, Edgar. Cala a boca. Estou indo embora.", ela resmungou. E foi para o lado de fora da cela, estava com as chaves.
"Espera."
"E eu aqui, bem trouxa, correndo risco de perder meu ônibus, só pra te deixar essas porcarias aí."
Ela apontou com o nariz para baixo da cama, que não era bem uma cama, e olhei na mesma direção. Um envelope pardo cheio de papéis.
"O que é aquilo?"
"Tudo que me pediu. E mais um pouco. Fui!"
Fui até as grades.
"Janete! Desculpe, eu não tinha como imaginar. Pensei que fosse a plantonista da DP."
"Plantonista? Mas ele se chama Reginaldo, ou Reinaldo, coisa assim. Foi ele que me emprestou as chaves pra poder ficar contigo um pouco."
"Ah, desculpe. Bobeira minha então. Achei que fosse aquela inspetora loira, sabe?"
Janete não conteve uma gargalhada.
"Ela estava ontem, meu querido. Dormiste um dia inteiro."
Fiquei zonzo com aquela informação. Um dia inteiro?
Ela se foi.
"Janete!"
Ela parou no final do corredor e ficamos nos encarando. Seus olhos escuros tinham o brilho da noite, a noite que traz em si um incógnito de esperança, sonho, poesia. Eu queria dizer que a amava, que a amava muito. Que sonhava todos os dias em tê-la de volta.
"Agradeça ao Reginaldo por mim.", foi só o que saiu, e ouvi como a minha voz era fraca, covarde, medíocre.
4
Olhei toda a documentação do envelope. Janete conseguiu imprimir a ficha de antecedentes criminais de todos os que estavam na pousada, páginas de redes sociais, arquivos de internet e notícias de jornais que envolviam seus nomes, inclusive o meu xará que deveria estar ali. Conseguiu uma relação de ligações na última semana que cada telefone, inclusive o da pousada, com rastreamento. Lista de compras com cartão de crédito, situações de todos com receita federal, um mapa de onde moravam e até um mosaico de relações e intersecções. Um belo trabalho. Ela tinha sido do serviço reservado da PM e ainda tinha senhas de acesso mais amplo aos dados de pessoas que os policiais comuns. E, além de talvez não ter dormido nada para conseguir aquele dossiê, estava se arriscando: se Júlio soubesse, ou pegasse aqueles documentos, a entregaria para a Corregedoria e ela estava frita. Talvez fosse presa ou expulsa da corporação. Fiquei emocionado e me senti um imbecil por ter estragado tudo. Eu não poderia simplesmente abrir os olhos e ver quem estava me fazendo cafuné?
Sou um desastre.
Mas, quando saísse dali, eu a procuraria. Para pedir desculpas. E para confessar que ainda a amava. Que precisava dela.
Tentei me concentrar. Não teria muito tempo até que alguém aparecesse por ali.
Comecei pelas fichas policiais. Separei tudo, sobre todos, como se fosse um álbum de figurinhas no chão da cela. Estava anoitecendo e só o plantonista continuava da delegacia, deduzi, pelo silêncio quase absoluto, quebrado apenas pelo som distante de um televisor ligado. O Mad Max não ia com a minha cara mesmo, só viria ali se eu chamasse. Se viesse. Eu tinha certeza que ele cedeu as chaves à Janete não por consideração a mim, mas encantado por ela. Então, eu podia ficar à vontade.
O dono da pousada, Alfredo, tinha duas acusações de assédio sexual, ambas tendo como vítimas mulheres casadas de meia idade. Procurei os dados da morta. Trinta e quatro anos. Hum. Ele teria tentado violentar a mulher, após o coquetel, e foi pego pelo marido, matou e depois forjou a cena do crime? Li tudo que Janete separou sobre o dono da pousada. Não parecia alguém muito equilibrado. Mas isto eu também não sou.
Não sei se Janete teve tempo de ler, mas fiquei surpreso ao ler o que ela conseguiu, quebrando as senhas de redes sociais do morto. Ele e a cunhada, do quarto ao lado, tinham um caso. Opa. Acendeu nova luz vermelha. Pesquisei o cara. A cunhada. O marido traído. O morto era um empresário em situação falimentar. A outra traía o marido com um cara quase sem grana? Amor? Fetiche? E, se ele estava à beira de um colapso financeiro, de perder tudo, minha teoria sobre ele ser canhoto e não ter sido suicídio não poderia estar errada?
Chequei o relatório de ligações. O pedido do quarto 8, das vítimas, era o que eu imaginava. Chá para ele, água para ela. Dona Irene que atendeu. Vi uma anotação, à caneta, que dava conta de Irene ter ouvido o morto gritar para a esposa, antes de encerrar o pedido, se ela tinha certeza de que não queria mais nada, e teria sido bem estúpido. Então reconheci a letra de Simão e vi que em vários papéis havia anotações dele. Trabalharam juntos, o tempo todo, Janete nunca tinha saído de Canela. Eu não me segurei e enchi os olhos de lágrimas.
Alguém pigarreou na porta da cela.
Levei um susto, tentei esconder o envelope, mas era tarde demais.
Júlio já tinha visto.
