Capítulo 7 - A fera está soltaCapítulo 1 - Capítulo 2 - Capítulo 3 - Capítulo 4 - Capítulo 5 - Capítulo 6
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1
Júlio tirou a chave do bolso. Segurava uma caneca de café. Estava quieto, parecia cansado.
"Não precisa esconder. Já sei o que é.", ele disse, ao entrar na cela. Eu havia sentado no catre e ele sentou ao meu lado. Fiquei surpreso. E lembrei de uma vez, quando meninos, numa tarde de domingo em que ele fez uma intriga, disse ao meu pai que eu havia quebrado um vaso com a bola. Tínhamos quatorze, quinze anos. O pai ficou uma fera, o vaso era da minha avó, ele perdeu a estribeira e me bateu. Tinha tomado umas a mais no almoço. Fiquei de castigo. À noite, Júlio entrou no quarto com um copo de refrigerante e fez aquele mesmo gesto. Mas não pediu desculpas. Nem falou nada. Ficou um tempo e saiu.
"O que é o quê?", perguntei, já antevendo a resposta.
"Não sei. Mas deve ser sobre a morte do casal. Acertei?", ele murmurou.
Eu estava mais surpreso ainda e não sabia o que responder.
"É."
Ele tomou um gole largo de café e me ofereceu a xícara.
"Quer?", perguntou.
Recusei, mudo.
"O que acha que está acontecendo?"
"Nem ideia.", respondi, sincero.
Ele passou a mão pela testa, pelos cabelos. Estava perdido. Tomou outro gole.
"Tenho até amanhã pra resolver. Vazou a história da morte da idosa, também."
Como ele sabia que eu já sabia?
"Chamei o Simão e a Janete para conversarmos fora daqui.", ele leu meu pensamento.
Eu fiquei remexendo papéis. Sempre ficava nervoso em certas situações, desde menino. Eu já tinha tomado os remédios do dia?
"Tens um baita amigo. O Simão te adora."
"Comprei o maverick dele."
Júlio riu. Um riso breve, um sopro.
"E a Janete te ama."
Meu coração acelerou, confesso. Ela teria dito aquilo? Resisti à tentação de perguntar. Mas, desta vez, ele não leu - ou ignorou - meus pensamentos.
"Quer me ajudar?", ele perguntou, finalmente me encarando.
Respirei fundo. Eu precisava driblar meu coração e manter a minha fama de mau.
"Interesseiro!", esbravejei.
Mentira.
Quase chorei e a frase não saiu.
2
Ficamos até a madrugada lendo o dossiê. Ele juntou os depoimentos do pessoal que estava na pousada, eu mostrei tudo o que Janete e Simão tinham conseguido. Debatemos vários pontos e foi bom, porque muitas coisas eu não percebi. Duas mentes funcionam melhor que uma. Mesmo em conflito.
Eu não havia me dado conta de que mais dois empregados, que Alberto apresentou na noite de sexta, não estavam na pousada na manhã de sábado. Mas tinham bons álibis. Só ele, Irene e o sujeito que barrou meu maverick.
"Não interessa um trabalho sério, técnico. Os caras pensam só em mídia."
Olhei Júlio. Aquela frase saiu dele, mesmo?
"Por isso fui embora.", resmunguei.
Ele baixou os olhos. Geralmente, já sabia qual era a sua resposta. Eu havia saído porque não consegui me adaptar à disciplina policial. Porque era um malandro.
"Tô cansado, cara."
Júlio? Ei! Sou eu, rapaz! Vai se abrir comigo depois de vinte e tantos anos de guerra?
É. Ele se abriu. Falou sobre o futuro casamento, suas desilusões na polícia, a vida complicada que ele, um cara certinho, não sabia administrar. Falou sobre a expectativa de ser pai, seus planos, o que achava que não ia dar certo. O que o preocupava. Falou de injustiças. E falou tanto que, umas duas horas depois, nós conseguimos trocar um abraço. Qual foi a última vez que nos abraçamos? Não lembro. Sei que éramos os melhores amigos, os primos invencíveis das peladas do bairro, da bolinha de gude, da competição de funda às goiabas do Seu Nicanor - um aposentado, que sempre corria a gurizada ameaçando dar muitos tiros, tiros que jamais deu.
Sim, eu lembrava.
Foi quando os pais dele ainda eram vivos.
3
Tomávamos um café, ao amanhecer. Nenhum de nós havia dormido. Tatiana, Reginaldo e o outro casal de policiais mais veteranos chegaram todos ao mesmo tempo. Deviam combinar caronas, como fazíamos em Porto Alegre, para economizar gastos. Ser polícia no Brasil é aprender a sobrevivência sob todos os seus aspectos.
Eles nos encararam espantados.
Olhei o rosto das duas inspetoras. A nova e a mais velha. As duas eram loiras. Foi então que algo me ocorreu e peguei Júlio pelo braço e o conduzi até o seu gabinete.
"Tem algo que não vimos!"
"O quê?"
"O Leão foi solto, chefe?", perguntou Mad Max.
"Foi!", Júlio gritou e bateu a porta atrás de si.
Remexi nos papéis. Achei o que eu procurava.
"A ficha de Dona Irene. Sei, só tem ocorrências como vítima."
"Exato! Mas olhe."
Mostrei a ficha. A foto da identidade que aparecia no sistema ainda era das antigas.
"Eu me dei conta disso olhando as duas policiais entrarem. Pode haver semelhanças entre duas pessoas. Pode haver a ação do tempo. Mas acha possível isto?"
"Meu Deus!"
Lemos em voz alta o histórico das ocorrências antigas de Irene. Então remexi o dossiê e lhe mostrei outros papéis. Júlio me encarou, boquiaberto.
"Vamos!", anunciou, enquanto pegava a arma de dentro da gaveta. Procurou por entre a bagunça mais ou menos organizada da sua mesa um molho de chaves, abriu o cofre atrás de si e entregou o meu Magnum.
"Toma. Pode precisar."
"Saudade dele. Para a pousada?", perguntei.
"Agora!"
4
Fomos os seis em duas viaturas. Mad Reginaldo Max veio na nossa. Tive impressão de que Júlio preferia a loira, mas meu primo, meu quase irmão, era um sujeito sério. Incapaz de ter casos estando com alguém. Bobagem minha. Eu é que sou um depravado e só penso besteira. No caminho, liguei do celular de Júlio (o meu eu nunca sabia onde estava e, quando lembrava, ele já estava sem bateria) para Janete e Simão e marquei o ponto de encontro.
"Há uma fera à solta.", disse Júlio, ao encerrar sua fala, assim que nos encontramos.
Janete havia me olhado. Só nós dois entendíamos o que aquilo também significava.
Chegamos todos ao mesmo tempo na pousada. Descemos rapidamente. Mesmo os inspetores mais velhos e Simão. A adrenalina faz milagres.
A pousada Alvos Montes estava toda fechada.
Simão e Reginaldo bateram palmas. Ninguém respondeu.
"Estranho", comentou Júlio. "Pedi que todos ficassem aqui, aguardando a liberação da delegacia".
"O que eles disseram?"
"Ninguém reclamou."
"Hum."
"Que foi?"
"Impossível. Mesmo entendendo, alguém tinha que reclamar."
"Acha que..."
"Acho. Eles sabiam que não estariam na pousada hoje."
Janete deixou a câmera de jornalista "frila" no carro e estava com sua arma na mão. Simão tirou não sei de onde um revólver calibre trinta e oito com cabo de madrepérola. Pensei que andava desarmado. Os policiais cercaram a pousada.
Eu, Júlio e Tatiana fomos para a porta.
"Vamos entrar!", avisou Júlio.
Um instante antes, olhei ao redor. Algo estava errado. Quis falar, mas eu não sabia exatamente o que era.
Claro que eu sabia!
Mas aí a porta já havia caído sob a força dos pés de Júlio.
