Oscar Bessi

Leão entre os alvos 8 (final) - A missa negra

Capitulo 8 - A Missa Negra

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Há muitos psicopatas espalhados pelo mundo. A maioria não mata, ao contrário do que se pensa. E há um crescimento de seitas secretas e macabras planeta afora, geralmente com objetivos purificadores, ou libertadores. Justificam toda e qualquer prática bizarra, como a morte de animais ou seres humanos, na purificação do lixo que dizem ter vivido na infância. As chamadas seitas luciferinas são as mais comuns. Elas diferem das satânicas pelos seus modos e objetivos. Sua crença é a de que Lúcifer foi uma grande vítima do cristianismo, que ele é a verdadeira luz, quem traz consigo sabedoria e conhecimento. Seus seguidores querem poder, dinheiro e tráfico de influências. Os satânicos, em geral, já têm tudo isto. Os luciferinos praticam a sua chamada "missa negra", ou vermelha, e não encaram com simpatia qualquer forma de governo organizada. São anarquistas, ainda que seus ritos, pactos e crenças sejam mantidos sob absoluto sigilo. E essas seitas se espalham de forma impressionante. Pudera, os humanos seguem cada vez mais doentes, mais asfixiados, mais desesperados, seja pelo seu estilo de vida cuja sobrevivência atropela a sensibilidade, seja pela distorção interna deste desespero. Eu sou um. Se não tivesse procurado o psiquiatra, não sei não. Nalguma doideira já estava metido.

Os seguidores dessas seitas dizem que Lúcifer, cujo nome significa "Luz de Alvorada", ou ainda "A maior traição", nasceu do fogo. Foi o mais belo dos anjos criados por Deus e tinha doze asas brancas. O problema foi quando armaram pra ele e se tornou o anjo caído. Humilhado. Algumas dessas seitas afirmam que ele foi o primeiro filho de Deus e não tentou, como dizem os cristãos, tomar o trono do pai, fato que resultou na sua expulsão do céu e exílio no inferno.

Algumas dessas seitas utilizam as doze asas brancas como símbolo.

Foi o que vi antes de entrar na pousada: na parte superior do casarão, quase no teto. Entra a alvura da decoração que inspirava neves. Imperceptível para quem olha a paisagem no correr dos dias, ou mesmo em passeios para se divertir, preocupados em flagrar quadros de beleza natural ao seu redor. As doze asas eram quase que uma fresta, um desenho invisível para quem não as quer ver. Mas estavam lá, no alto, bem nítidas. Doze alvas asas macabras.

Elas e seus alvos. Seus ritos.

Doze asas brancas. Entendi tudo, quando olhei para cima. O mesmo desenho de um grupo nas redes sociais que reunia Alberto, as moças baladeiras, o cunhado traído e, inclusive, sua esposa. O sujeito caladão que chegara mais tarde e se chamava Leopoldo também. O nome do grupo nada revelava, era um sigla, como tantos milhares de outros. Descobrimos nos documentos que Janete trouxe, onde raras intersecções entre os hóspedes e empregados da pousada eram perceptíveis.

Dona Irene não aparecia entre os integrantes. Nem os dois empregados que foram dispensados na noite do crime. Não conseguimos acessar o conteúdo do grupo.

Mas uma coisa era certa, eles não foram ali por sorteio, muito menos para apreciar queijos e vinhos ou comer fondue no romântico inverno serrano gaúcho. Não.

Eles estavam ali com outro objetivo. A sua Missa Negra anual.

 

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Passamos um rádio para todas as frações policiais da região. A polícia rodoviária abordou a van com Alberto e os seus hóspedes em Farroupilha. Não chovia mais.

O que encontramos no porão da pousada foi bizarro. Um ambiente lúgubre, decorado nas cores vermelha e preta. Um altar com garrafas de vinho. Abrimos para verificar.

Era sangue. Humano.

Nas fotos dos dois cadáveres, o que à primeira vista parecia ser apenas pequenas marcas naturais da pele, ou no máximo alguma alergia, quase imperceptíveis entre mãos e axilas, eram na verdade picadas de micro seringas. Especiais, importadas para uso odontológico e veterinário. Todas estas picadas acertavam a passagem da veia basílica, vai do dorso da mão até à artéria axilar. É uma veia bem superficial que passa pela gordura na região posterior aos músculos do membro superior. O seu fluxo de sangue é intenso. É onde os profissionais de saúde escolhem para fazer a chamada punção venosa, ou coleta de sangue para exames e tratamentos.

Havia um bom número de picadas cuidadosamente espalhadas por cada membro superior do casal assassinado - a esta altura do campeonato não restava mais qualquer dúvida, tinham sido mesmo assassinados - e da idosa que morreu asfixiada, provavelmente por um travesseiro. Pelas fotografias que encontramos, ela também pertencia à seita.

"Eu não te disse que estava estranho?", perguntei ao Simão.

"O quê?"

"Aquele papo de beijo na velha esposa."

Meu sócio sacudiu a cabeça.

"Eu beijo a minha mulher.", ele resmungou. "E não saio por aí matando gente pra fazer missa pro diabo."

"E eu quero um velhinho que me beije."

Janete parou ao meu lado. Por mim, eu a beijaria naquele mesmo instante.

Uma das inspetoras gritou ter encontrado as seringas no sótão.

Júlio me chamou.

Em uma gaveta do armário que ficava atrás do altar, encontramos cartas seladas. Os textos estavam escritos em formas de oração a Lúcifer e com data recente. Cada uma delas era assinada por um integrante da seita e dizia o nome de quem queria ver morto e beber o sangue na Missa Negra, os motivos, as graças que pretendia alcançar, o que desejava ver banido de sua vida para sempre. Ali constatamos que foi o marido da idosa quem pediu a sua morte, queria beber o sangue da própria esposa, por um motivo banal. "Ela me xinga todo dia", ele explicava, num texto desconexo, pois logo em seguida falava que Biló, o cachorro deles, tinha acreditado nas mentiras da dona. Suas cartas mais antigas, que encontramos no imenso baú de madeira pintado de preto e decorado com as doze asas brancas, traziam um texto mais lúcido, a letra mais firme. Devia estar sofrendo de alguma doença cerebral.

Aliás, todos aqueles tipos ali formavam um belo bando de dementes.

Mas o que nos surpreendeu foram duas cartas pedindo a mesma vítima

 

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O marido traído queria a morte do cunhado. Mas sua esposa também. Por quê?

Dívidas. Muita grana, pelo que deu para perceber. Burradas que ele teria feito na época em que os esquemas com alguns governos estavam no auge. Deu processo, mídia e, mesmo que ele tenha assumido a responsabilidade de se defender no processo como único responsável pelas propinas e superfaturamentos, muito prejuízo aos seus cunhados.

Mais tarde, a mulher confessaria, na DP, que se aproximou do morto já com o objetivo de atraí-lo à cilada mortal. Queria beber seu sangue. Perdeu jóias durante o escândalo, que precisou penhorar. Mas, para atender Lúcifer, aceitou ir para a cama com ele.

Cada doida, murmurou o Mad Max, pela primeira vez me dirigindo um sorriso. E sem óculos - havia curado a conjuntivite.

Meu xará estava numa das cartas. O Edgar Leão que tinha apenas um sobrenome diferente do meu. No envelope da bela morena que me tratou com desprezo no refeitório. Ela pedia o sangue do ex-namorado. Ufa! Sorte minha que ela me cortou de cara, pensei.

Encontramos a ata que definia funções para o preparo da Missa Negra e convocava cada um para uma espécie de confessionário com a liderança da seita, o que eu e Júlio imaginamos ser o planejamento individual de cada crime. Nesta ata, descobrimos que foi o secretário da seita errou o nome na hora de pesquisar os contatos telefônicos e me passou o número errado (o meu!) para Alberto. Era o mesmo tipinho que barrou meu velho maverick.

Ainda bem que estavam todos presos, ou a próxima garrafa de vinho o conteúdo seria o seu sangue.

A foto de Irene jovem, no seu documento de identidade, não tinha a semelhança necessária com seu rosto atual para que pudesse ser a mesma pessoa. Mas ninguém presta atenção nisto. Uma senhora clara, que um dia foi jovem e bonita, hoje envelhecida. Até por educação alguém que, por acaso, percebesse, a pouparia de comentários. Eu me dei conta disto ao ver as duas inspetoras entrarem na delegacia, naquela manhã. Tinham semelhanças. Mas a juventude e a velhice de cada uma tinha suas próprias características.

Demorou, mas encontramos a verdadeira Irene. Havia sido morta há muitos anos.

Era a primeira mulher de Alberto.

E na carta onde ele pedia o sangue de então esposa à Lúcifer, mostrava o desejo de virar seu devoto e seguir Carmem, o verdadeiro amor da sua vida, para escalar os alvos montes do sucesso na vida.

Carmem, a Irene de hoje.

A líder da seita.

 

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Claro que Júlio permitiu que o Correio do Povo, a TV Record e a Rádio Guaíba fossem os primeiros a noticiar, de forma exclusiva, a descoberta macabra. Mesmo sem ter marcado a coletiva. Um pedido de Janete, a brigadiana "frila".

Quer dizer, Janete pediu foi pra mim.

Estávamos no pátio da delegacia. Simão ao meu lado, tomando um chimarrão e filosofando sobre essas "côsas" da loucura humana. Eu olhava a tarde que se azulava cada vez mais, os montes, o branco das nuvens, e lembrava do meu sonho. Vinho com sangue na neve. Hum. Teria algo a ver? Será que eu tinha essa coisa de adivinhação, mediunidade e o escambau? Janete se aproximou, máquina fotográfica pendurada no pescoço e a arma ainda na cintura, passos lentos, jeitinho manhoso. Eu sabia que lá vinha coisa. Quando ainda estávamos juntos era assim. Ela fazia aquela carinha pidona, e miava, e eu já atendia.

Mas os tempos são outros.

"Ah. Fala com ele, por favor!", Janete insistiu.

"Não."

"Por quê?"

"Júlio não vai gostar. E é a primeira vez em muitos anos que terminamos algo sem conflito. Peça outra coisa."

Ela levou o indicador ao queixo e fingiu pensar um pouco. Achei engraçado. Ela não sabia fingir que pensava.

"Se pedir pra ele, te convido pra jantar."

"Quê?"

"Amanhã!", sorriu.

Eu soltei uma boa gargalhada. Simão também. Ele encheu a cuia e me ofereceu um mate. Aceitei.

A inspetora loira passou sorrindo lá na calçada e me abanou. Sorri de volta.

Janete me pegou pela gola do casaco e me puxou contra ela. Derrubei água e erva na roupa.

"Olha aqui, ô bonitão! Não te fresqueia pra essas zinhas aí, viu?"

Parou de falar e ficou me encarando. Bem de perto.

Eu estava com muita saudade de ser encarado por ela, assim, bem de perto, sentindo a sua respiração e o seu perfume.

De repente Janete me beijou. E eu fechei os olhos porque tudo ao meu redor pareceu girar. Tudo tinha uma alvura suave, um frescor, uma leveza que me tonteava. Pensei nos meus remédios, eu tinha tomado ou não? Desmaiaria com o beijo, se não tivesse tomado.

Ela me empurrou de volta e colocou o indicador delicadamente no meu nariz.

"Amanhã. Não esquece!", ela disse, e se foi para dentro da delegacia.

Jeitinho manhoso.

Devolvi na hora a cuia para o Simão - que balançou a cabeça e torceu o bigode, contrariado, resmungando uns não-sei-quês naquele dialeto de quando ficava brabo - e fui direto ao gabinete do Júlio.

Pedi uma entrevista exclusiva para Janete. Quer dizer, para o Correio do Povo.