
(conto)
“Prazer, eu sou o Leão. Mas não mordo”.
Ofereci um sorriso, olhei dentro dos seus olhos e beijei-lhe a mão. Eu só me apresento assim para mulheres. Algumas mulheres - estabeleço alguns pré-requisitos. É que minha esperança de Janete voltar já definhava, então pensei que não seria de todo ruim viver alguma aventura fugaz. Sexo é saúde, diz um comercial na TV. E não gosto de zona. Gosto de química. Não a dos tempos de escola, nesta eu sempre me dava mal, nunca entendi a tal tabela periódica e passava com as calças na mão. Mesmo no vestibular. Falo em relações. Gosto da conquista, do jogo de sedução, embora nunca tenha sido um grande pegador de garotas. Tenho mais de trinta e me sinto um sujeito antigo. Se bem que, mesmo na adolescência, sempre pertenci ao time dos que dizem que não matam, mas se acharem morto, etc.
Ela devolveu o sorriso. Bom sinal. Gostei dos traços suaves de seu rosto, do estilo meigo e gestos pausados, a voz macia. O belo corpo bem moldado nas roupas justas. Torci para que fosse mais um caso de traição e o marido fosse um belo canalha. Esses tipos merecem o troco, deitar com suas esposas é um ato filantrópico. E eu sou voluntário por natureza. Há quantos meses não transo, mesmo?
"Sou casada."
Vibrei em silêncio. Ela tinha me ligado pela manhã, disse que leu o anúncio no Correio do Povo, que estava com um problema, um pequeno problema, e cogitava me contratar. Gostei da voz e marquei o encontro no Boteco Pedrini da Wenceslau. Boteco só no nome, é um bar chique e gosto do chope que eles servem. E dos picadinhos. Adotei o método de me encontrar com clientes apenas em lugares públicos, neutros, que os obriguem a pensar duas vezes antes de me matar, por exemplo. De preferência um bar cheio de gente e com um belo chope. Mas sempre pago a minha conta. Ou quase sempre.
"Existem maridos que não valorizam o que têm em casa.", falei, com meio sorriso enigmático e olhar penetrante no capricho. Está certo que me arrependi meio segundo depois pelo clichê barato. Como canastrão, eu ainda era um fiasco.
Ela me olhou surpresa, para piorar. Depois baixou os olhos e sorriu. Vieram os chopes.
"Não é o meu caso."
Hein?
Ela pensou um pouco antes de continuar. Contou que o marido era ótima pessoa e que ela mesma não se entendia, mas tinha precisava ter um amante. Puro tesão. Gostava dele e não queria perdê-lo.
"É?", eu não encontrei nenhuma frase adequada, até cogitei perguntar se ela se referia ao marido ou ao amante, mas deixei pra lá.
"Aham. O que eu quero do senhor, detetive, é saber do meu futuro."
Tomei dois goles generosos do meu chope. Era noite de inverno e fazia um quase calor. Ouvi na Guaíba que era coisa do El Niño. Vinha chuva intensa por aí.
"Olha.", eu respirei fundo e encarei a mulher, tomei mais dois goles, disfarcei minha impaciência. "Não sou a Mãe Diná, te confesso."
Ela riu.
"Detetives desvendam coisas, não é isto o que vocês fazem? Quero saber se meu marido vai descobrir o que acontece comigo, ou se vou continuar em paz com o meu namoro secreto, se tudo vai continuar bem. É que tenho medo, sabe."
Namoro. Pelo menos ela não era vulgar.
Assenti, terminei meu caneco, pedi outro chope e lhe dei o orçamento. Pedi que, depois de assinar o cheque, me entregasse anotado num guardanapo os nomes completos dela, do marido e do amante. Fiz algumas perguntas sobre o trabalho de cada um. Fui embora dez minutos depois, após ouvir suas confissões sobre vazio, desejo, destinos e desatinos e aquela necessidade que tinha de ter outro homem, coisa e tal. Prometi ligar.
Em casa, telefonei para o Harry (eu o chamava assim porque ele era a cara e os óculos do Harry Potter), meu personal hacker. Dei os nomes e pedi que quebrasse as senhas de rede social do trio. Menos de cinco minutos depois ele ligou de volta, deu as senhas (quem é essa pessoa que coloca cabrita78 como senha de facebook?) e já me cobrou a grana que lhe devia de três trabalhos. "Senão vou hackear a tua conta", ele ameaçou, rindo. Prometi pagar no dia seguinte.
Imprimi um punhado de mensagens e coloquei num envelope. Decidi visitar o marido traído. Gente boa, o cara. Gente boa mesmo. Vendia azulejos. Fiz uns orçamentos e prometi voltar. Ele me ofereceu descontos. Passei na escola onde o amante dava aulas de teatro, mas não falei com o cara. Fui à agência dos Correios. Apanhei o ônibus, desci no centro e troquei o cheque no banco.
Liguei para a minha cliente três dias depois.
"É o Leão", eu disse, quando ela atendeu. Noutra situação, eu completaria com um "aquele que não morde", para fazer graça. Noutra situação. Como disse, não brinco com qualquer uma.
"Oi."
"Serviço encerrado. Teu marido já está sabendo de tudo, te prepara.", eu disse, depois de olhar o relógio e conferir que já passava de quatro da tarde. Horário máximo, segundo me disseram, para o carteiro já ter passado na loja do marido.
Ela soltou um grito de pavor e desliguei. Fiz um café e fui checar meus e-mails.
Droga, de novo esqueci de pagar o Harry.
