“Quero saber se ela é só minha”.
O detetive Edgar Leão levou o caneco de chope aos lábios num gesto lento, encarou o sujeito sentado à sua frente e não estranhou aquele sorriso jocoso. O incomum, ali, era apenas o fato de ele querer provas para justificar seus próximos - e previsíveis - atos. A maior parte dos homens partia direto de suas próprias conclusões à parte final: acusar, humilhar, agredir. Sem qualquer sentimento de culpa, como se fosse lei da natureza. A posse e o orgulho macho. Quando ainda estava na polícia, durante as férias da Margarete o delegado pediu que cuidasse dos casos de Maria da Penha. Lidou com muitos tipos como aquele. A diferença, entre eles, residia no preço do carro, da casa ou das roupas que vestiam. No fundo, eram todos meros possuidores de mulheres.
- Onde o senhor conheceu sua esposa? - o detetive percorreu com o olhar os fregueses do bar, ao seu redor. Só aceitava encontrar clientes em lugares neutros, onde pudesse tomar um chope e avaliar o contratante antes de aceitar o caso. E continuou, antes que o outro respondesse - No supermercado?
- Não entendi. - respondeu o homem, o meio sorriso que tentava ser irônico, mas não havia entendido a piada. Leão também não estava a fim de explicar.
- E se ela não for sua?
- Não será de mais ninguém.
Leão balançou a cabeça, enquanto terminava seu chope. Percebeu que o outro estranhou sua reprovação. “Detetive. Vou pagar, pagar bem, e quero saber. Aceite o caso, traga-me as provas e fim. O resto não lhe diz respeito”, ele rosnou. “Há uma questão de honra, aí, que o senhor, se tem mulher, entende perfeitamente”. Leão ouviu e o encarou. Não, ele não tinha mulher. “É que ela pode ser dela, só isto”, deixou escapar. O outro arregalou os olhos. Depois riu.
- O senhor é feminista, detetive? Ou gay?
Edgar Leão apenas sorriu. Pensou em Janete. Não lembrava mais se tinha colocado desejo ou respeito em primeiro lugar. O fato é que não tinha dado certo. E talvez tenha se equivocado. Talvez tenha errado a vida toda. Pensou em mais um dia dos namorados sozinho, na contramão dos casais ao seu redor, empurrou o caneco e chamou o garçom.
- Ele vai acertar com vocês. - anunciou, sem olhar seu ex-futuro cliente. E saiu. Olhou a mulher quase nua da propaganda na porta do bar e sentiu um vazio na alma. E nos bolsos. É. Seguia na contramão, pelo jeito.
