Entrou na padaria a passos lentos, sem prestar atenção no movimento ao seu redor. Tinha os olhos fixos no aparelho que levava na palma de sua mão esquerda, enquanto o indicador direito ia e voltava em movimentos nervosos. O olhar absorto, concentrado em vasculhar as ligações perdidas no celular, as mensagens recebidas por torpedo, por whats, facebook. Ele negava a si mesmo, mas, no fundo, tudo o que movia sua busca febril era qualquer esperança tênue de que Janete desse algum sinal de vida. De querer falar com ele outra vez.Nada. Apenas alguns contatos de clientes. Guardou o celular na jaqueta no mesmo instante em que esbarrou numa senhora, entretida com um croissant e as risadas de suas amigas. Pediu desculpas e ocupou, como de costume, a mesa mais ao canto, ao lado da vidraça onde se lia o nome da padaria. Dali via a esquina toda. Nada que fosse necessário naquele momento, não estava trabalhando. Pelo menos não ainda. Tudo o que queria era um café preto com uma torrada só de queijo antes de começar, de fato, o dia.
A moça trouxe a bandeja com seu pedido menos de cinco minutos depois. Leão não pode deixar de observar a moça mais uma vez. Tinha cabelos pretos longos, presos num coque, um sorriso muito branco e simples, sobrancelhas um pouco mais espessas do que o normal para as garotas de sua idade. O rosto de menina contrastava com a voz firme de mulher que já batalha pela vida, lida com gente e ouve de tudo durante um dia de trabalho. Um charme discreto. Gostava dela sem saber o porquê. Torcia, silenciosamente, para que ela fosse feliz, muito feliz.
Suspirou. Felicidade é apenas a certeza de que a vida não está passando inutilmente. Leu isto nalgum lugar. É, ele mesmo precisava entender isto, um dia.
Olhou a viatura da polícia militar que estacionou na esquina, em frente ao banco, no espaço que lhes era reservado pela diretoria de trânsito municipal. Os dois policiais desceram. Um entrou na agência e Leão observou que foi direto ao terminal eletrônico. O outro ficou na calçada, olhou ao redor, mas sua atenção em seguida se fixou no celular que sacou do colete e passou a manusear.
Havia movimento intenso na esquina àquela hora, como sempre. Uma fila aumentava a cada segundo na agência lotérica. O dono do restaurante do outro lado da rua coordenava a arrumação das mesas, carros entravam no posto de gasolina mais adiante, a farmácia estava cheia como todas as farmácias do centro sempre estão. Taxistas chegavam e saíam do ponto a todo instante, ou conversavam animadamente em grupos até chegar o próximo passageiro. Transeuntes cruzavam em seu frenesi cotidiano de dia útil. Tudo chatissimamente normal.
Até que Leão percebeu algo que não combinava. O vendedor que sobraçava limpadores de para-brisa se afastou da frente do banco e passou a cuidar os policiais. Não oferecia nada aos carros que estacionavam ou paravam no sinal. Ele não desviava o olhar da viatura. Quando o PM saiu de dentro da agência, conversou com o outro, que apenas guardou o celular e ambos embarcaram no carro policial e se foram. O vendedor ficou cuidando a direção que tomaram. Em seguida, sacou de um celular e enviou alguma mensagem rápida. Não demorou muito para que três homens entrassem na padaria e tomassem assento na mesa ao seu lado, de onde também podiam enxergar bem o banco. Um deles trazia uma mochila que depositou com cuidado sobre a mesa. A garçonete se aproximou, com seu sorriso de sempre, e perguntou o que gostariam de pedir. Um deles disse que por enquanto nada, esperariam um amigo. Ela agradeceu, disse para ficarem à vontade e qualquer coisa era só chamar. Leão observou a tatuagem no braço do que carregava a mochila. Dava para ver a boca escancarada e os ares de palhaço do Coringa. Comumente, aquela tatuagem era usada por bandidos ligados a roubos a mão armada e morte de policiais.
Leão sorveu um gole de café com calma, observando. Sentia o cheiro de encrenca no ar. Os homens olharam para o vendedor, que fez um gesto afirmativo muito sutil com a cabeça. “Esses caras vão meter o banco”, pensou Leão. E pegou o celular.
- Amiga! - fez uma voz afeminada, que chamou a atenção do trio - Vou te mandar um vestido que recebi agora pelo whats, tá? Ma-ra-ra-vi-lho-so!
Percebeu o riso debochado na mesa ao lado. Na outra ponta da ligação, Júlio, seu irmão de criação e delegado na zona sul, não entendeu nada.
- Vestido? Que frescura é essa, Edgar? Pra quê essa voz?
- Mas olha agora, viu? Agora! Vai te surpreender. E quero que use hoje, entendeu? Hoje!
Leão desligou. Acionou o aplicativo do whatsapp e digitou a primeira mensagem.
“Vão assaltar banco. Estou ao lado deles.”, e enviou o endereço.
“Tá delirando? Esqueceu que agora é detetive particular, não é mais polícia?”, respondeu Júlio.
Leão respirou fundo.
“É sério. Três homens na padaria. Um na frente do banco, vendendo limpador de para-brisa. Cuidaram a viatura sair e estão fazendo sinais. Manda equipe.”
“Vou mandar é a Brigada te levar para um sanatório”.
“Confia em mim. Tem que ser rápido.”
Pausa. Júlio digitando. Nova pausa e, enfim, a resposta.
“Tá, vou ver se tem algum informe no setor de investigação”.
Leão quase respondeu com um palavrão, mas se conteve. Ele próprio não tinha certeza de nada. Apenas desconfianças. Mas por que o vendedor não oferecia seus limpadores de para-brisa a ninguém? E olhava o relógio a todo instante? Os homens na padaria faziam o mesmo. O detetive olhou o relógio na parede, passavam quinze minutos das dez horas. Talvez estivessem aguardando a chegada do carro-forte.
Dez minutos depois, com nenhuma nova mensagem de Júlio, Leão decidiu agir. Levantou e manteve a voz afeminada.
- Desculpe, gente. Mas vocês são daqui?
Sentiu sobre si os três olhares de reprovação. Mas queria saber mais, pescar quem eram aqueles caras, ou pelo menos atrapalhar o que tinham intenção de fazer. Corria o risco de virar refém, sabia. Mas estava com seu magnum .357 enfiado na cinta. Puxou a quarta cadeira da mesa e sentou-se entre eles.
- Vocês sabem onde fica a agência dos Correios?
Os homens se olharam, claramente incomodados com a sua presença. O da mochila parecia apreensivo.
- Não. - grunhiu o mesmo sujeito que respondera à garçonete. Era um tipo calvo, forte, com uma cicatriz discreta no pescoço.
- Estamos esperando um amigo. - disse outro, e apontou a cadeira ocupada por Leão com o nariz.
- Não se preocupem, não vou demorar. De onde vocês vêm?
Leão perguntou e olhou para a rua. Percebeu que o tipo que vendia limpadores estava inquieto, olhava para onde estavam e para a outra esquina. O homem da mochila pegou seu braço com força. Ia dizer algo, mas deixou a frase suspensa no ar. Uma nova viatura da polícia, com quatro PMs de uniforme camuflado, estacionou em frente ao banco. Os policiais desceram rapidamente e atravessaram a rua. Leão chegou a pensar que veria Janete, naquela equipe, mas ela não estava entre eles. Vieram em direção à padaria. Entraram anunciando abordagem e miraram a sua mesa.
- Levantem os quatro e ponham as mãos na cabeça. Agora!
Um frenesi tomou conta da clientela e funcionários. Os homens pareceram aturdidos. Não esperavam por aquela. Leão viu que o sujeito dos limpadores de para-brisa se afastou a passos rápidos e sumiu de cena.
- Aquele lá também está junto! - gritou para os policiais.
- Cala a boca e levanta as mãos!
Leão tentou argumentar, mas foi empurrado contra a parede. Um sargento pedia desculpas aos outros clientes e explicava, era uma abordagem de suspeitos. Um dos soldados foi direto à mochila e encontrou duas pistolas e mais quatro carregadores. Outro passou a revistar um por um e, quando chegou em Leão, encontrou de cara o magnum na sua cintura.
- Rá! Mais uma arma! - vibrou.
- Vou chamar reforço. - anunciou o sargento - Vamos levar os quatro pra delegacia.
Algemados, foram jogados em três viaturas, sob aplausos dos curiosos. Leão ainda viu a garçonete das sobrancelhas negras lhe lançar um olhar de piedade. Apenas na delegacia, com a chegada de Júlio, conseguiu explicar quem era. Devolveram-lhe o revólver.
- Pô! Por que não me avisou que ia mandar gente lá? - Leão interpelou o quase irmão, furioso.
- Não deu tempo. E vai que tu te precipita e estraga tudo.
Leão riu, irônico.
- É. Mas agora sabe que é bom levar a sério o que eu falo. Eu estava certo, não estava?
- Não exatamente. - respondeu Júlio.
Leão encarou o delegado.
- Como assim?
- Não era para assaltar o banco que estavam ali. Mas o pessoal da Investigação tinha um registro de ameaça ao dono do restaurante.
- Ameaça?
- Na verdade um plano para matá-lo. Ele descobriu dois dias atrás fuçando nos emails da esposa. Ela e o amante contrataram esses sujeitos para assaltá-lo e dar um fim nele. - Júlio fez uma pausa e sorriu - Mesmo sem querer, meu caro, tu só sabe investigar adultério, mesmo.
O delegado deu um tapinha no ombro do quase irmão, igual ao que fazia quando eram garotos e o pai acusava sempre um deles por qualquer traquinagem: Leão, o culpado, o atrapalhado, o precipitado. Ele odiava aqueles tapinhas de consolação debochados que Júlio costumava dar depois em seus ombros, condenando-o por ser tão burro a ponto do pai não confiar nele.
- Já falei com o promotor. Vou mandar uma equipe buscar a mulher dele, agora.
- Tinha mais um. - resmungou Leão. - O vendedor. Deixaram escapar, mas deve estar pelo centro.
Júlio deu de ombros.
- Esse fica pra outra. Não dá pra prender todo mundo no mesmo dia.
Leão saiu da delegacia querendo um novo café. Ajeitou o magnum na cinta, sacou o celular e conferiu as mensagens. Nada de Janete.
Felicidade é o quê, mesmo?
