Oscar Bessi

Livros não deveriam agredir

Vamos esperar para ver o que aconteceu por trás desta cena chocante. Há que haver uma explicação. E a polícia dará. Única coisa que não podemos, agora, é aproveitar este fato lamentável para crucificar os professores. Ou pregar o fim dos livros nas escolas. Ou, como já fazem alguns, tentar terminar de vez com a já tão maltratada Educação.

Ver o vídeo gravado dentro da sala de aula de uma escola infantil, em Caxias do Sul, abala qualquer um. Embrulha o estômago e arrepia. O choro forte e imediato da criança após a agressão. O desespero. A justificativa horrível daquela pessoa adulta (parar de rir!) que ataca à traição, sem qualquer chance de defesa, um ser infinitamente menor, ao qual ela deveria proteger e ensinar, amparar, até corrigir, mas jamais fazer o que fez. O medo que devem ter sentido os demais pequenos naquela sala naquele instante. A confusão e o pavor em suas cabeças. O pobre menino, de apenas quatro anos, perdeu um dente e teve outros cinco comprometidos, tamanha a violência da agressão sofrida. Uma agressão com livros. Logo os livros, que nestes dias bicudos, neste mundo de ignorâncias e intolerâncias, são tão essenciais à humanização dessas novas gerações. Humanização que passou longe neste episódio lamentável e repulsivo.

E não era em uma escola pública - estas sempre tão lembradas e criticadas quando o assunto é desrespeito e violência. Não era um episódio com adolescentes revoltados, cooptados e envolvidos com drogas ou gangues. Não era um dos tantos e lamentáveis casos de desrespeito ao professor que, só nos últimos dias aqui no RS, culminaram em agressões contra docentes e registros de ocorrência policial, tanto praticados por alunos (grandes, é bom lembrar) quando por pais. Ao contrário. Tudo aconteceu em uma escola particular, onde os pais pagam, ou “investem” como preferem dizer alguns, para receber formação, educação e proteção enquanto trabalham. Era uma criança que, mesmo que tentasse, não teria chance de agredir, não de verdade, não desta forma tão trágica, um adulto. E aqui vai uma reverência aos pais: poucos seriam tão fortes para ver o que aconteceu com seu pequeno, com o amor de suas vidas, ainda assim manter o equilíbrio e deixar que a responsabilização deste crime se dê pelas vias legais, e não pessoais.

Um profissional da área da educação é, em regra, um vocacionado. Não é carreira para fazer fortuna. Não é a escolha certa para se tornar popular. Ao contrário, assim como outros ofícios, como os relacionados à segurança e saúde públicas, exige renúncia, equilíbrio, capacidade de lidar com o outro, talento para encarar de forma natural qualquer diversidade. E a esmagadora maioria destes profissionais são exatamente assim. Mas, quando uma professora chega a este ponto, a uma agressão deste nível, a um horror desta envergadura, talvez a única explicação seja a de que ela não está bem. Não está em sua normalidade. Ainda que outros dois casos tenham sido trazidos à tona, agora, de agressões que seriam de autoria da mesma pessoa, há que se considerar que não é nenhuma novata no ramo. Vamos esperar para ver o que aconteceu por trás desta cena chocante. Há que haver uma explicação. E a polícia dará. Única coisa que não podemos, agora, é aproveitar este fato lamentável para crucificar os professores. Ou pregar o fim dos livros nas escolas. Ou, como já fazem alguns, tentar terminar de vez com a já tão maltratada Educação.