
Ela tamborilou impaciente no volante, olhou o sinal vermelho, o sol que prometia outro dia difícil e o filho de cinco anos que se agitava no banco de trás. “Fica na cadeirinha, filho, por favor!”. Ele queria mostrar algo na mochila e falava sem parar sobre a fantasia de Homem de Ferro, na festinha da escola no dia seguinte, que super-heróis as outras crianças seriam. A mulher passou a mão na testa e não conseguiu lembrar se havia tomado o comprimido contra pressão alta. Pensou em pedir que o menino ficasse quieto. Estava com uma enxaqueca insuportável desde cedo. Cobranças de trabalho bombardeando no whatsapp, o pai no hospital, a geladeira estragada, o marido longe demais para ajudar. Desistiu e não repreendeu o filho. Como num aviso, apenas sorriu e concordou quando ele disse, pela quinta ou sexta vez, “né, mãe, que eu sou o Homem de Ferro?”. Num instante depois, tudo virou agressão e pavor.
O sujeito bateu com violência no vidro da sua janela e, de início, ela apenas se assustou. Então viu a arma. Não conteve o grito e a pancada se repetiu, os gritos do homem, os palavrões, as ameaças. Viu o cano nervoso que ele apontava ora para ela, ora para o filho. O menino começou a chorar e ela sentiu o mundo girar numa vertigem súbita. Não sabia o que fazer, as mãos tremiam, o corpo todo tremia, o coração queria saltar pela boca. Veio uma tontura, mas ela se recusava a se entregar, pensava no filho, pensava nas tantas mortes em assaltos, nas notícias, não queria isto com eles, por Deus, não queria! O homem abriu a porta e a puxou pelos cabelos, jogou seu corpo no asfalto e ainda lhe deu pontapés, jamais soube dizer quantos. Caída, o gosto do sangue entre os lábios, tentou olhar onde estava seu filho, tentou chamar, implorar pelo filho. Só quando o seu carro arrancou em alta velocidade percebeu que ele também estava jogado na rua, machucado, em prantos.
Só mais um roubo de carro. Que, por qualquer vontade divina, não se transformou em latrocínio, como outras tantas ocorrências similares. Então a gente vê os detalhes da Operação Macchina Nostra, do Departamento Estadual de Investigação Criminal (DEIC) da Polícia Civil gaúcha. O apartamento milionário onde o provável mandante de todas essas barbáries mora. Luxo, conforto, privilégios e prazeres conquistados a guisa de rios de sangue e lágrimas inocentes. Fortuna com o eco de milhares de gritos de desespero. Negócio bem estruturado e planejado, onde a vítima poderia ser qualquer um de nós, desde que tenha o carro escolhido para o próximo cliente. Para cada encomenda, mais de um roubo, só para garantir. É que a polícia gaúcha é eficiente e recupera em seguida, na maioria das vezes, os veículos levados. Dureza. Às vezes julgamos que nosso infortúnio alimenta só gestores públicos inescrupulosos. Não. A nossa dor engorda muita gente por aí. Agora é torcer para que não sejam liberados tão cedo para seguir com essa rede de violência e terror.
