Oscar Bessi

Maria Fumaça e a minibiblioteca comunitária de Bento

Fui com a Josi, e o nosso pequeno João Ernesto, descansar no caminho inverso das praias, mais uma vez. Já contei sobre um verão nas Missões aqui no Correio do Povo. Desta vez, num tiro mais curto, paramos em Bento Gonçalves. Fiquei impressionado com o grande público de turistas presentes na cidade em meio ao feriadão de ano novo. A fila para o maravilhoso passeio de Maria Fumaça, então, era enorme, de dar inveja aos mais badalados parques aquáticos do litoral. Gente de todos os estados do país (mineiros, baianos, paulistas, cariocas, catarinenses, goianos, pernambucanos) e até do exterior. E, claro, gaúchos de todos os rincões. Pudera. Vale a pena o passeio. Do início ao fim, uma equipe super preparada e atenciosa dava conta de todos os detalhes àquela multidão embriagada de história e cultura.

O passeio não é só belo pelas paisagens e pela Maria Fumaça em si a puxar nossos vagões - conseguimos assento no 215, o primeiro, com bancos originais dos tempos em que aquele era o principal meio de transporte entre lugares distantes. É o show de arte e cultura que se oferece no caminho. Um grupo de teatro maravilhoso encena uma discussão entre um casal de italianos. Depois, veio um grupo de dança e música de um CTG local. Josi encontrou um colega seu de faculdade entre os dançarinos. E eu fiquei me perguntando como os caras conseguem cantar, tocar e dançar com o trem em movimento.

Ainda veio um grupo de coral, dança e música italiana. Depois, três meninas com uma gaita, um bumbo e um pandeiro fizeram o encerramento ítalo-gaúcho da viagem. Todos arrancaram muitas palmas dos presentes que, entusiasmados, cantaram e dançaram juntos. João, com seus dois anos recém feitos, era pura empolgação e deslumbre.

Em Garibaldi, degustação de sucos e espumantes. Em Carlos Barbosa, o encerramento com o melhor da música romântica italiana ao vivo. E o retorno para Bento em ônibus de luxo. Sinceramente, eu sabia que seria algo bacana, mas não esperava tanto. Turismo cultural gaúcho de altíssimo nível. Longa vida ao passeio da Maria Fumaça em Bento Gonçalves, Garibaldi e Carlos Barbosa!

Porém, o que nos deixou entusiasmados foi encontrar no charmoso centro de Bento, quase em frente à prefeitura, uma minibiblioteca. É uma casinha de madeira de acesso irrestrito que pode ser vista na foto abaixo, tirada pela Josi. Deixei livros meus por lá. Ficamos observando crianças irem até a casinha, retirarem ou depositarem livros, em pleno feriado. Empolgadas com a leitura. Com o contato possível com o conhecimento e a magia. E a literatura é um poderoso instrumento de humanização, todos nós sabemos. As gerações futuras de Bento agradecerão.

Josi, empolgada, ficou citando pontos da nossa cidade onde poderia haver uma minibiblioteca daquelas. E eu já viajei na ideia e fiquei fantasiando todos os centros de cidades, todas as praças, todas os bairros, estações de trem ou metrô, postos de combustíveis, zonas rurais, estacionamentos, pontos de ônibus, todos os lugares possíveis recebendo uma casinha de livros. E as escolas promovendo gincanas em torno delas. Com incentivo e premiação dos seus diretores, ou dos seus governos. E os diretores de RH das empresas incentivando seus trabalhadores a lerem. E os líderes comunitárias, os líderes religiosos, os comandantes militares, os delegados, os chefes, os...

Certo. Viagem mesmo. Mas sonhar é permitido, ainda mais quando se vê que um sonho pode ser possível e simples. A minibiblioteca de Bento é mini. Mas é maiúscula pelo que pode fazer com a nossa gente.