Insisto há algum tempo: a praia é um lugar onde se comprova haver um socialismo possível. Aliás, o único até hoje implantado com sucesso. Talvez por que tenha sido sem querer. Principalmente em domingos e feriados. Sem censuras, prisões, muros, grades ou guerras. Nenhuma ditadura de Estado. Sem tons vermelhos, revoluções, greves ou manifestações rua fora. Nada. Sequer campanha política. Ele vem como deveria ser, ao natural. Na origem da essência humana.E aflora com o homo praianus, esta criatura que vem do homo-sapiens. Metamorfose instantânea assim que o sujeito avista o mar, biquínis minúsculos e caipiroscas de abacaxi. Por uma, ou por outra, quando percebe já é um ser socialista ao extremo. Mais socialista do que Marx ou uma casa de swing poderia conceber. Naturalmente transpirando liberté - um pouco demais, digamos, mas tudo bem, na praia tá liberado - e égalité. Despido de tudo. Quase indígena. Um homem puro, o homo praianus. Puríssimo.
Começa pela vestimenta. Ou por sua ausência quase completa. Barrigudinho ou marombado, siliconada ou com celulite, todos desfilam em pé de igualdade. Sem pudor ou preconceitos de estética ou cosmética, a humanidade se despe. Das máscaras, vestidos finos, paletós e uniformes. Não estarão em capas de revistas, mas eles mostram como realmente são. O que jamais fariam numa reunião da empresa, clube ou associação comunitária. Após um ano todo sob rótulos, o homo praianus se nivela. E não está nem aí. Quer mais é curtir o sol. E a caipira. E os biquínis ou sungas. Quase um animal, na areia, nem aí para a lógica. Mas no ápice de sua verdadeira racionalidade possível. Ou seja, apenas humano.
E tem mais. Na praia, todos os pares são permitidos. Toda aventura amorosa é plausível e todo amor é inesquecível. O preço do botijão de gás também. A praia é assim. Única. Efeito do sol. Ou do sal. Talvez do aumento do pedágio. O fato é que algo transforma o homem quando ele chega por lá.
O homo praianus não quer latifúndio. Ao contrário, contenta-se com mini-fúndios restritíssimos, suficientes para uma esteira, guarda-sol, uma ou outra cadeira de abrir e uns baldezinhos de areia. O dono da maior exportadora de perfumes chiques e o desempregado. Lado a lado, com o mesmo pedaço de terra – incrivelmente minúsculo, se for feriadão – e exercendo a boa vizinhança. Sem CPF, IPTU, MST nem SUS. Nada. Bons e respeitáveis vizinhos, iguais perante à areia e à sujeirama que nela depositam. Pelo menos até que uma bola de frescobol os atinja. Ou se flagre um close demorado no bronzeador da mulher do próximo. Senão, tudo é paz.
Mas há uma invasão capitalista iminente. Camuflada. E ela vem com agentes disfarçados de vendedores de canga, óculos, sonho, picolé e por aí vai. Daqui a pouco tem banco eletrônico na guarita do salva-vidas. O FMI acampa em Imbé. Não falta muito. É o ocaso da essência, a derrota do natural. Não falta muito para o homo praianus acreditar que dá mesmo para botar fogo na água.
Foi o que fizeram com os índios. Deu no que deu.
