Meninos, vocês verão coisa pior

Meninos, vocês verão coisa pior

Oscar Bessi

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Há praticamente 32 anos ingressei na Brigada Militar. Minhas primeiras ocorrências, ou as que lembro, foram um furto de bicicleta, uma senhora em surto com uma faca, um traficante tentando fugir da nossa viatura (um Opala, com xadrez) num táxi Fusca. Dali em diante, tive o azar, ou a sorte, de viver de tudo um pouco. De ver de tudo, até o inimaginável. De participar e sentir sem ousar permitir que alguém percebesse o que se passava por dentro, no peito e na alma. Porque precisa ser assim. Policiais são mediadores de conflito, não parte dele. Nada fácil. Muitas vezes impossível. Agora, confesso a vocês que há horas, muitas horas na nossa vida policial, em que qualquer resquício de fé na humanidade fica por um fio. E uma lufada de incertezas anuvia os olhos da gente. Mas prosseguimos. Contra a lógica, contra o senso comum equivocado nesse país de malabarismos viciados em burlar qualquer lei, qualquer controle, qualquer mínima regra de respeito, ou mera consideração, ao outro.

Digo isto porque, na última quinta-feira, dia 18 de novembro, a Brigada Militar completou 184 anos de existência entre os gaúchos. Cada vez mais consolidada como essencial e eficaz em tudo o que se propõe a fazer, a despeito das dificuldades herdadas pelas visões equivocadas até mesmo desajustadas de gestores políticos não muito afetos à segurança pública. E, no seu aniversário, a Brigada Militar presenteou os gaúchos com mais uma leva de novos soldados. Meninos e meninas a prestarem o juramento de defender a cidadania, a liberdade e a sociedade como um todo mesmo que com o sacrifício da própria vida. Boa parte deles, duas centenas para ser mais exato, eu acompanhei em seus primeiros passos, quando ainda servia na Escola da Brigada Militar em Montenegro. E hoje vejo, com orgulho e, porque não confessar, muita emoção, eles e elas se tornarem meus mais novos e decididos colegas de farda. Prontos para ver de tudo também. Como eu vi.

Meninos, meninas, vocês verão coisas piores. Assim caminha a humanidade, para uma involução que acelera o tempo, digitaliza e resume a vida, enquanto banaliza a violência e o ódio. Quem olhou o vídeo de uma câmera de segurança que filma parte do assalto ocorrido em uma loja de armas, frustrado pela Brigada em Farroupilha, vê como bandidos se portam. Eles têm armas pesadas e querem matar os policiais. Que não recuam em nenhum momento. Bandidos, estes, repletos de crimes, caras que não deveriam estar nas ruas. Mas é o Brasil. E o Brasil nunca muda. É o país onde se bota soda cáustica, formol e água oxigenada no leite. E agora se faz hambúrguer de carne de cavalo doente e de carne podre. Apenas para lucrar. Azar de quem comer esse lixo. Meninos e meninas, este é o tipo de sociedade que vai lhes cobrar um preço muito alto, sempre. No erro e no acerto. Parabéns por aceitarem o desafio! 


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Correio do Povo
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