Oscar Bessi

Meus afilhados do front

Na próxima semana, a Brigada Militar entregará, à sociedade gaúcha, mais uma turma de jovens soldados, na formatura do CBFPM 2024/25. Homens e mulheres que escolheram o caminho da renúncia, da entrega, da força e da honra. Escolheram a árdua e nem sempre reconhecida missão diária de servir e proteger o próximo. Policiais para ruas e dias complexos. Para realidades diversas, imprevisíveis e intensas.

Na próxima semana, mais precisamente na manhã de sexta-feira, 25 de julho, a Brigada Militar entregará, à sociedade gaúcha, mais uma turma de jovens soldados. Será a formatura do Curso Básico de Formação Policial Militar (CBFPM) 2024/25. Mais uma geração de homens e mulheres que, mesmo tendo toda a vida pela frente – e eu espero de coração que todos tenham vidas longas e frutíferas, ainda que com os riscos que tão bem conhecemos – escolheram o caminho da renúncia, da entrega, da força e da honra. Escolheram a árdua e nem sempre reconhecida missão diária de servir e proteger o próximo.

Num gesto gentil, as quase três centenas de formandos da Escola de Formação e Especialização de Soldados (EsFES) de Montenegro escolheram como paraninfo da turma este colunista e veterano policial. Que hoje se dedica às letras, mas que até março ombreava ao lado dos que estabeleceram, como meta e compromisso, formá-los naquela escola. Para que sejam policiais tão bons que saibam salvar muitas vidas, assim como os que lá os antecederam fazem, todos os dias. Mas que também saibam se salvar. E que façam jus à confiança e à esperança do povo gaúcho. Policiais para ruas e dias complexos. Para realidades diversas, imprevisíveis e intensas. Policiais para quem sabe e para quem ainda não entendeu o quanto precisa de policiais.

Esta é uma turma especial. Sua chegada na Escola de Montenegro, logo após as tragédias do ano passado, foi o símbolo de uma vitória coletiva com a cara do gaúcho: plena de força, entrega, garra e gana. Porque talvez alguns leitores não conheçam, mas esta cinquentenária escola da Brigada Militar, mais antiga dentre as de formação de soldados, está às margens do Rio Caí. E o que aconteceu em maio de 2024 quase colocou um ponto final numa história daquela que, entre dezenas de gerações de policiais militares gaúchos, é conhecida como “a Lendária”. Mas com muita força, entrega e determinação ela voltou, em pouco tempo, e talvez ainda melhor do que antes. Apta para o ato de coragem do governo gaúcho em manter o chamamento dos aprovados naquele concurso.

E talvez eu jamais esqueça do dia em que os quase trezentos novos alunos soldados chegaram para iniciar a “semana zero”, período de adaptação à vida policial militar. Como os espartanos de Leônidas, dispostos a encarar o que alguns chegaram a considerar impossível. Por meses, acompanhei sua formação e transformação, sob a batuta impecável da coordenação e a condução precisa, e dedicada, de todo o efetivo daquele quartel cuja missão é formar. Precisei sair em 10 de março, por força de lei, pois nenhum policial militar pode ficar mais do que 35 anos na ativa. E agora, para compensar o coração apertado por ter que assistir do cais o navio zarpar, veio esta homenagem. Vieram numa corrida de rua em formação militar, da escola até minha casa, para fazer o convite. Emocionante. Aos meus afilhados, agora soldados prontos para o front, assim como aos demais formandos deste julho, só posso desejar que a realização do servir e proteger seja plena. E que o mundo tenha a decência de ser mais justo com eles do que foi com a minha geração.

Mais Lidas