Oscar Bessi

Miminho e a Mediocridade





Meu gato é um filósofo. Quando as coisas acontecem, ele me olha, com seus grandes olhos azuis, ouriça seu pelo branco e cinza e me encara por um bom tempo. Não diz nada. Eis sua melhor filosofia: a contemplação. Há muito que nem precisa ser dito. Quando escrevo, Miminho ronda meus pés e vai para a janela. Dali ele olha a cidade, a civilização irritadiça e impaciente dos humanos, as ruas que mudaram de sentido outra vez, os sons sem harmonia da urbe e tira suas conclusões. Sobre o mundo. Sobre a vida. Sobre política, história, a zaga do Inter. Depois se esconde ou me pede comida e vai dormir, criar teorias sobre tudo, sonhar. Meu gato é desses que cria e sonha. Um artista.

Miminho passa dias sem nos visitar. Fica lá no interior do interior, em Vapor Velho, onde o céu tem mais estrelas e os mentiras são mais raras, pois há menos humanos. Quando tornamos a nos encontrar, ele me conta as novas. Em silêncio. Só me olhando. E eu desabafo minhas angústias com ele, deixando mágoas entre seus pelos enquanto o acaricio. Dia desses, contei ao Miminho como as pessoas podem ser pequenas. E como uma criatura, que noutros tempos já se disse meu amigo e agora decidiu - sozinho - que me odeia, fez todo um movimento para me prejudicar. Que não deu certo. Ou deu certo pela metade, pois a flecha aguda da tristeza me atingiu. Eu me abalo com a maldade. Mesmo que os outros disparos tenham passado longe, desviado pelos amigos, pelos amores, por carinhos.

Perguntei ao Miminho, mas o que leva alguém a ser tão mesquinho a ponto de correr atrás a fim de prejudicar o outro por uma questão, apenas sua, de ego? Ele deu de ombros com seus olhos interrogativos de gato. Não sabia. Gatos não entendem isso de mediocridade humana. Gatos são gatos. Gostam de carinho, leite morno, novelos de lã e aconchego. Têm dificuldades com intrigas. Dizem que eles não se dão com os cachorros, mas é lenda. A maioria são amigos e se respeitam. Miminho, Russo e Belinha, por exemplo. Eles se dão muito bem lá em casa. Ela é uma cadelinha moleque e alegre, ele um cusquinho espoleta que só faz brincar, os dois adoram o gato. E o amor é recíproco. Quando meu pai ainda era ainda vivo, Belinha morava com ele. E o veterano Bessi mudou seu conceito sobre permissões a bichinhos de estimação. Concedeu-lhe tantas regalias, até umas que jamais tive, que cheguei a quase ter algum ciúme. Quase.

Quando toquei nisso de ciúme, Miminho me olhou mais fundo como quem diz “Arrá!”. E me repreendeu em silêncio. Entendi. Ele estava me explicando que mediocridade, ciúme e outros sentir sem fundamento são coisas de humanos. Os que se acham donos de uns e de outros. Belinha só quer folia. O Russo, correr. Ele, Miminho, prefere dormir e filosofar. São felizes assim. E nós aqui, gastando energia para estragar o mundo. Ou uns aos outros.