Eis um livro que começa empolgante antes mesmo de iniciarmos a sua leitura. Porque, de cara, o título chama, instiga, atiça: "Mistério no Centro Histórico". Bah! Quer mais? E tem: a capa. Trabalho de Humberto Nunes com foto de Andre Feltes. A Editora Dublinense é reconhecida por suas capas tão belas quanto charmosas - e, sim, a capa seduz o leitor, é fato - Os livros da Dublinense são sedutores. Esta, em especial, tem quase um aroma. Uma textura. Casa de maneira perfeita com o livro, seu contexto, seu autor.Aliás, eis a maior empolgação, a meu ver, para que leiamos "Mistério no Centro Histórico": seu autor. Tailor Diniz, o grande Senhor do Suspense Policial no Rio Grande do Sul. Dono de um currículo invejável, tem quinze livros publicados, já foi vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura, foi traduzido em diversos idiomas e, além de tudo isto, é roteirista de cinema e tevê pra lá de premiado. E um baita cara!
Bueno, mas vamos ao livro. Sem contar a história, claro. "Mistério no Centro Histórico" traz de volta o simpático e enigmático detetive Walter Jacquet, um gaúcho de Alegrete que fez fama como investigador particular nos EUA, e o ora simpático, ora medroso e irresponsável (até para a empregada Inácia) Joãozinho Macedônio, amigo de infância e colega de universidade do detetive "Waltão". Os dois, entretanto, formam uma dupla de muito bom gosto. Ao iniciar uma rodada de avaliação dos originais de uma novela produzida por Macedônio, baseada no caso real da recente explosão no Centro Histórico da Capital, Jacquet vê as falhas na história. Não apenas as literárias de seu autor. Mas as da vida real. E decide mergulhar numa investigação que envolve terroristas da fronteira, policiais honestos e não e a cúpula política gaúcha, com uma reviravolta digna da literatura policial clássica. Aliás, Tailor mistura o humanismo e densidade do romance "noir", e seus personagens problemáticos, com os enigmas lógicos do whodunnit (de Who Done It?, ou Quem Fez Isso?).
E entre cafés, charutos, vinhos e uísques, assim como o cubano Padura Fuentes, Tailor nos oferece um delicioso tour gastronômico que permeia e tempera algumas passagens e cenários. Aliás, outra virtude inegável: passear, com Jacquet, ou com Macedônio, ou com o Delegado da Polícia Federal Basileu Tinôco pelas ruas, bares, livrarias e calçadas de Porto Alegre que conhecemos. É uma delícia para o leitor poder fazer isto. Dia desses, uma professora de ensino médio ainda me contou ter encontrado um de seus alunos no centro da cidade, fazendo fotos. Ao indagá-lo sobre o motivo destas, ele revelou que era ali, onde fotografava, que se passava a história do livro que estava lendo. Sim! O leitor adora isto!
Bom, mas não é apenas uma boa trama policial, de leitura leve, divertida e agradável, daquelas que se devora sem parar em pouco tempo, que Tailor nos oferece. Há muito mais. Há reflexão. Quer saber como certas autoridades de Segurança Pública lidam de forma irresponsável, e até criminosa, com fatos informações, objetivando colheitas eleitoreiras e não o verdadeiro fim da sua pasta? Quer saber como empresas privadas podem se aliar aos gestores públicos para atingir suas metas especulativas, ainda que seja preciso morrer inocentes? Quer saber como a banda toca? Tailor mostra bastidores com o olhar humano e sensível de um grande escritor, mas com a propriedade de quem conhece o assunto. E eu digo isto porque também o conheço. Talvez menos que o Tailor, claro.
Outra: quer uma aula interessantíssima e diferente sobre lógica? Com direito a fórmulas e tudo mais?
E mais outra: quer as aulas de uma oficina literária, com todos os principais seus ensinamentos e macetes, inseridas de tal maneira na ficção que se torna, de um jeito criativo e surpreendente, exemplo prático sobre o que fazer e não fazer ao criar seu texto literário, ou preparar o seu original?
Tem tudo isto em "Mistério no Centro Histórico". Crítica, reflexão, humor, suspense, aula de lógica, oficina literária. E, é claro, uma boa aventura policial. Um livro e tanto! Eu li em dois dias. Porque preciso trabalhar, cuidar da família, etc. Minha vontade era não largar o livro em momento algum. E um detalhe que adoro nos livros do Tailor: seus mergulhos, ou de seus personagens, no sul mais sul do nosso estado.
Para os amantes da literatura policial, como eu, é o lançamento do ano. Sem sombra de dúvida.
Mistério no Centro Histórico, de Tailor Diniz, será lançado pela Dublinense no dia 27 de abril de 2016 (quarta-feira), a partir das 19h30min, na Livraria Cultura, no Sopping Bourbon Country em Porto Alegre. E no dia 04 de maio, às 19h, chance de encontrar o autor e seu lançamento no bate-papo sobre literatura policial com este cronista e a também ótima Carina Luft (autora de Fetiche e Verme, romances lançados também pela Dublinense), mediação da blogueira e escritora Gislaine Oliveira. Será na Praça Rui Barbosa, em Montenegro/RS, como parte da programação da 14ª Feira do Livro do Vale do Caí (onde sou patrono, por um acaso do destino), com sessão de autógrafos às 18h.
