Não condeno quem compra livros para colorir. Afinal, existe louco pra tudo. Há quem coma formigas e vá a um restaurante para isto. E pague caro, muito caro, mais caro que um prato com lagostas. Formiga é melhor que lagosta? Formiga e lagosta são melhores que um pastel de carne e ovo? Discussão inútil. Tem os que fazem sexo com os dedos roçando um teclado de computador. Cada um na sua. Por que não haveria quem gostasse de livros sem letras?
Outro dia um amigo meu comprou um desses livros. Só para dizer que comprou, pois eu conheço bem a figura. Gosta de andar na onda. Quando éramos garotos, ele conseguiu um disco do Pink Floyd que não havia na cidade, só em Porto Alegre. Disco mesmo, elepê. Desceu do ônibus e, nas semanas inteiras que se seguiram, ele desfilava pelas ruas do centro com aquele disco na mão, como se fosse um cartaz. Tinha o cuidado de ostentar da forma mais explícita que podia: em frente ao peito, ou ao lado do corpo, num contorcionismo exagerado para que o braço não atrapalhasse a visão dos outros. Que outros? Só um magrão, na verdade, se interessou pelo disco. Mais porque ele mesmo forçou a barra e puxou conversa para mostrar o tal disco raro. A capa era uma vaca de costas que virava a cabeça e encarava a gente, emburrada, como quem pergunta “e aí, tá de olho na minha bunda por quê?”. Aquilo mais parecia um disco sertanejo. “Atom Heart Mother”, se não me engano. Eu também gostava de Pink Floyd. Mas nunca desfilaria pela rua com aquele disco de bunda de vaca na mão. Nem com disco nenhum.
Ele comprou o livro para colorir e foi lá me mostrar. Disse que era novidade, era bom, terapêutico e outras calhordices que ouviu na TV. Era um sábado à tarde e eu estava muito ocupado torcendo pelo Bologna num jogo da série B do campeonato italiano. Esqueci de dizer que sou louco por futebol, assisto a qualquer jogo que passe, ao vivo ou videotape. Vejo mais de uma vez o mesmo jogo. E ainda revejo os gols depois, no final do noticiário. E também me esqueci de dizer que sou descendente de italiano, então tenho pouca paciência e muita sinceridade explosiva em certos momentos, aí quando deu uma bola na trave eu saltei da poltrona e o mandei enfiar aquele livro lá no sabe onde. Ele foi embora. Fiquei sabendo depois que ele não pintou nem meia página e largou o livro de mão. Agora anda ocupado em estudar um jeito de deixar seu mamilo em formato de coração, igual viu na internet. Cada louco. Aliás, hoje não tem futebol. E me deu vontade de provar formiga.
