Oscar Bessi

Monstruosidades inexplicáveis

Basta haver um ser humano, que ninguém sonha ser totalmente desajustado, e está feita a tragédia

Era noite de quinta-feira e eu estava, confesso, esgotado do trabalho. Estar cansado nos deixa com a alma vulnerável, não vou lembrar agora em que livro li isto, há muitos anos. Após o banho abri, como de costume, o portal Correio do Povo para me atualizar. E as duas notícias mais lidas pelos internautas me provocaram um turbilhão de emoções diferentes. Fui do espanto à indignação, da incredulidade à tristeza mais profunda. “Atraída e assassinada por monstros”, abre a manchete que cita o depoimento dramático da família de uma grávida que, em Porto Alegre, foi morta e teve o bebê roubado de dentro do seu ventre. Essa só perdia para “Criança de nove anos invade veterinária e esquarteja 23 animais no Paraná”. Curioso, pesquisei sobre os dois casos e percorri as opiniões dos internautas nas redes sociais. O sentimento preponderante, excetuando-se as bobagens e barbaridades típicas do meio virtual, era de choque. A crueldade humana surgia pintada sobre tons tóxicos de ferocidades improváveis.

Paula Janaína não foi a primeira mãe atraída a uma cilada para ser morta e ter seu ventre aberto por criminosos, ou criminosas, cujo objetivo era roubar seu bebê. Há cerca de quatro anos, em Santa Catarina, por exemplo, uma professora de 24 anos foi morta a tijoladas por uma amiga de infância, que também a atraiu para uma armadilha. O bebê foi arrancado de sua barriga, cortada com estilete, ante uma frieza assustadora da assassina que surpreendeu a todos. Porém, naquele caso a criança sobreviveu. Em Porto Alegre infelizmente não. E os detalhes de crueldade do caso espantaram até mesmo os policiais. Paula era uma mãe dedicada, já tinha uma menina de 7 anos e adotou a sobrinha, filha de uma irmã envolvida com drogas. Coração gigante. Talvez por isto tenha caído, sem sequer pensar em maldade, na armadilha da amiga que prometia um presente para o bebê. As pessoas boas têm esse costume de acreditar nos outros.

Agora, o espanto maior ficou para a cena inacreditável de um menino, com apenas nove anos de idade, que invadiu um hospital veterinário no Paraná, matou e esquartejou 23 animaizinhos, entre coelhos e porquinhos-da-índia. Uma fazendinha que havia sido inaugurada no dia da criança para animais de pequeno porte. Na festa de inauguração do espaço, um sonho dos proprietários, houve visitação e inclusive este menino esteve lá. Agora, pais dos seus coleguinhas estão com medo de mandarem os filhos à escola, como noticiou o portal R7. O que motiva uma criança, que pela lógica deveria brincar e se encantar com os bichinhos, a fazer algo tão monstruoso? Algum game? A pergunta será difícil de ser respondida. Talvez um tratamento psicológico criterioso dê alguma luz à família (o menino morava com a avó). Mas esses exemplos servem de alerta. Precisamos estar atentos. O improvável se revela dos jeitos mais bizarros a qualquer momento, em qualquer lugar. Basta haver um ser humano, que ninguém sonha ser totalmente desajustado, e está feita a tragédia.