Há algo errado numa cidade onde o abandono pode ser fatal. Há algo errado com a cidadania de um lugar que permite que pessoas sigam jogadas na calçada, sem qualquer ajuda, até morrer. E morrer talvez de frio e de fome. Porque também precisamos considerar: há algo estranho em termos três mortes atingindo moradores de rua, em tão poucos dias, numa mesma cidade, num mesmo bairro, numa quase mesma situação. Que bom que a Polícia Civil gaúcha já está investigando esses casos. Eles exigem respostas. E, após as respostas, ações. Porque a hipotermia pode ser a causa dessas mortes - e em pelo menos uma delas está até comprovada, pelos exames periciais. Mas mesmo a hipotermia pode ser causada por alguém. Ou pelo desinteresse de muitos alguéns.
A situação de pessoas em situação de rua agravou muito no Brasil nestes últimos anos. Em 2013, eram pouco mais de 20 mil pessoas registradas como vivendo nesta situação. Dois anos depois, em 2015, já eram em torno de 100 mil. Cinco vezes mais. Uma década depois este número, que já havia subido assustadoramente, mais que triplicou. Temos quase 400 mil pessoas em situação de rua hoje no país. Todas estas pessoas expostas a todos os riscos e vulnerabilidades intrínsecas de estar assim. Aqui, no sul, ainda tem o frio como grande perigo.
As questões que levam alguém a se tornar morador de rua são complexas. Vão de questões econômicas, como perda de emprego ou moradia, a situações de saúde, vício em drogas ou álcool e problemas graves de relacionamento familiar. O aumento nos últimos anos também pode ser creditado a uma melhor organização, hoje, dos cadastros públicos sobre as pessoas em situação de vulnerabilidade. O que não garante uma realidade exata, pois boa parte delas não está em cadastro algum. O que implica dizer que o número de moradores de rua certamente é maior. Como sempre digo: confie desconfiando dos dados oficias. As estatísticas são uma maquiagem no rosto que se mostra, mas estão longe de ser a realidade do corpo inteiro que se oculta. Números são como imagens: ferramentas de marketing.
Entenderemos, em breve, as causas das mortes dos três moradores de rua em Porto Alegre, graças à investigação policial. E o que faremos com isto? Como se inspirar em lugares no mundo onde este é um problema mínimo? Moradores de rua são vítimas e autores de violência todos os dias. Ou seja, isto pode, de repente, afetar a vida de qualquer um. Mais ainda somos muitos a fingir não ver. Ainda somos muitos a quase pisar em cima de um ser humano e apenas dar de ombros, ou resmungar algum incômodo, ou simplesmente lamentar sem fazer nada. O pior é que uma parcela destes que nada fazem chega à gestão pública, aos processos decisórios, ao dever de se preocupar com o coletivo - mas seguem não vendo, ou fingindo não ver. Precisamos reverter este quadro triste. Pois alguém que amamos pode, hora dessas, estar na mesma situação.
