Oscar Bessi

Não era amor, era só violência

Seguimos assistindo o repetir das barbáries, justificadas por uma passionalidade no mínimo obtusa, quando não apenas e simplesmente doentia. Mas não julgue quem ama e, em nome deste amor que logo adiante se revela equivocado ou maldito, se deixa, por ele e apenas por ele, iludir ou trapacear, se ferir ou até morrer. Talvez se seja ainda muito complacente é com os agressores.

Goethe escreveu que o amor não domina, cultiva. Três séculos depois e ainda não entendemos nada. Temos este problema. Tantos escrevem tantas coisas, tão essenciais à reflexão, e a reflexão seria tão essencial ao nosso evoluir, mas desprezamos tudo isto e o pensamento jaz jogado por aí, e só um ou outro se dá conta da sua relevância e poder de transformação. Nos dias de hoje, agrava-se pela superficialidade apressada dos dias e seus correres tecnológicos. Então seguimos assistindo o repetir das barbáries, justificadas por uma passionalidade no mínimo obtusa, quando não apenas e simplesmente doentia. Mas não julgue quem ama e, em nome deste amor que logo adiante se revela equivocado ou maldito, se deixa, por ele e apenas por ele, iludir ou trapacear, se ferir ou até morrer. Não condene, muito menos, o amor em si por isto. Ele é essencial à vida como é o oxigênio, e a água, e o alimento, e o calor. Um processo de evolução interna de cada ser humano, já dizia Sócrates, e mais de um milênio antes.

O político assassinado foi atraído a uma emboscada quando, até prova em contrário, rumava para um encontro amoroso. As vítimas da nossa região metropolitana caíram no golpe de uma quadrilha do outro lado do país que usava um namoro virtual para, em seguida, encenar a descoberta por parte de alguém traído e passar à extorsão e à violência. As arapucas virtuais têm sido comuns, infelizmente, desde que a internet criou essa possibilidade maravilhosa de gerar aproximação entre as gentes. Mas o crime mais chocante foi a brutal execução de uma mulher por seu ex-companheiro, no interior do RS. Ele descarregou a arma contra a vítima na frente do filhinho de ambos, de apenas 6 anos. Depois, foi de moto até o hospital, para onde um vizinho a havia levado de carro, na tentativa de socorrê-la e salvá-la. Ali, na porta, na frente de todos, ele completou sua execução bárbara descarregando sua arma outra vez contra a jovem mulher, que não resistiu. Depois disso tudo, o criminoso ainda justificou sua violência e crueldade como um ato de amor ao filho. Uma criança cuja vida ele arruinou.

Os feminicídios seguem sendo um problema no Brasil e no mundo (inclusive na Argentina, só para constar). Além disso, não é o primeiro caso que mostra que a medida protetiva, no fim das contas, não protegeu. Talvez se seja ainda muito complacente com os agressores. É de pensar: um sujeito que, dias antes e descontente por ter perdido a guarda do filho, tenta invadir a casa da ex-mulher com violência extrema, forçando a porta, quebrando vidros e proferindo ameaças graves, merece seguir livre? Ah, é o benefício da dúvida. E o benefício de seguir viva, negado à mulher? Legisladores, por gentileza, discutam menos sobre os seus conchavos partidários e pensem melhor sobre as leis que versam sobre a proteção de nossa gente. Porque haverá quem culpe o amor um dia sentido por essas pobres vítimas. Não, o amor jamais terá qualquer culpa. Só o ódio tem. Mas tudo isso é ser humano. Ou seja, previsível.