No fundo, apenas os colorados fanáticos queriam muito que o Inter fosse campeão. Fanáticos são fanáticos, elas não olham para os lados. Azar deles.Nem falo como policial ou escritor. Falo como ser humano: não gosto dos fanáticos. De qualquer espécie. Volta e meia, eles tem o péssimo costume de ignorar a racionalidade e a civilidade, cegos por suas convicções.
Novo Hamburgo é uma cidade como tantas outras do Rio Grande do Sul. Tirando exceções como Pelotas e Caxias do Sul (no caso da Serra em menor intensidade), onde os torcedores são primeiro de seus times depois tem uma opção entre a dupla Grenal, o povo gaúcho se divide entre gremistas e colorados. E pouco ou nada valorizam os times de suas próprias cidades. Uma pena, pois a dupla também pouco ou nada valoriza as cidades do interior.
Mas ontem, os novo-hamburguenses desacostumados a apoiar seu time vestiram a camiseta. Ontem, os gremistas eram Nóia. E os xavantes, a papada, os torcedores do interior faziam coro a Beto Campos "esse título não é só para Novo Hamburgo, é para todo o nosso interior do RS, que merece!". E digo que, no fundo, a grande maioria dos colorados não saiu triste. Saiu preocupada? Ah, com certeza.
Eu, por exemplo, sou Xavante. E sou Colorado, desde que o Inter não cruze o caminho do rubro-negro pelotense. Ontem, eu torci para o NH.
Fez-se justiça. A gente vibra quando se faz justiça. Esse é um sentimento que acompanha a humanidade desde que se inventou o poder, a prepotência, os desmandos, os abusos, a submissão.
A gente vibra quando se faz justiça principalmente quando o pequeno vence o grande, o oprimido vence o opressor, a vítima supera o agressor.
Em tempos de insatisfação contra o medo e a violência, o azul celeste que pinta o futebol gaúcho tem ares de paz e esperança. É um sentimento assim, bem assim, que percebo em quem me fala sobre a decisão de ontem.
Mas o mundo seguirá. Injusto, implacável, na posse de quem o domina. Nada vai mudar.
Mas é bom demais quando, vez ou outra, ele nos permite essas frestas de ar puro.
(Foto: Ricardo Giusti, Correio do Povo)
