Oscar Bessi

Necessidade?

Recebi e-mail muito interessante de um leitor, há algum tempo. Ele me questionava se, um dia, o combate rigoroso a bandidos de toda ordem fosse sério nos níveis de prevenção (educação) e repressão, não haveria uma crise de empregos caso - num resultado social utópico - todos abandonassem a vida de crimes e fossem trabalhar honestamente. Duvido. A experiência policial, e não apenas ela, mostra que a esmagadora maioria dos crimes que nos cercam não são cometidos por necessidade. Seus autores não precisariam fazer o que fazem. É resultado dessa ganância inescrupulosa que nos asfixia. E perdoem-me a redundância da ênfase, eis que, por óbvio, é impossível alguém ser ganancioso e ético. Ou mesmo humano.

Olhem estes casos de furtos e roubos dos fios de cobre. Alguém vai se perguntar: mas tchê, por que alguém se dá ao trabalho de roubar isto? O que ganha? Aí é que está. Ganha-se muito. Porque há quem compre. O que a Delegada Sílvia revela é o retrato do absurdo que nossa sociedade consumista, egocêntrica e desumana cria e admite como cultura, a ponto de achar muito natural se dar bem pisando sobre cabeças alheias. E de não se importar se um idoso foi covardemente espancado, uma criança foi violentada, famílias foram destruídas ou lesões irreversíveis desmantelaram vidas e sonhos. Pra quê? Apenas para que aquele bem, no fundo tão insignificante e efêmero como tudo o que é material à nossa volta, chegasse até ali. O que justificou a violência contra o outro? A dor e a lágrima? Lucrar. Ganhar mais gastando menos, a qualquer preço. Nada importa além disto.

O mercado paralelo dos desvios é tão forte quanto o mercado oficial, com uma vantagem: não paga tributos. E não se iludam, os bandidos não são apenas os que te apontam uma arma contra a cabeça, invadem tua casa ou te torturam para entregar o que conseguiste com suor, mas de repente decidiram que deve ser deles ou tu morres. Bandidos igualmente vis são os que compram. Os que se aproveitam, os que encomendam, os que alimentam a cadeia feroz e cíclica da violência. Da cobiça. Do mercantilismo impregnado em nossas almas. Não haveria roubo de carro, se peças roubadas ou carros clonados não tivessem clientela. Não haveria usuários de crack desesperados por qualquer mínimo bem que lhe surja no caminho, se os “espertos” não comprassem as “barbadas” oferecidas pelos boqueiros. Não haveria ataques a caminhões de carga com bandos armados de fuzil, se nenhum mercado abastecesse suas prateleiras com mercadoria roubada. Corruptos pensariam antes de meter a mão e desistiriam, pois todos têm bons salários mesmo, e a saúde pública não seria caótica e fatal. Enfim. Fios de cobre são apenas mais um nó dessa meada macabra.