Como toda manhã, leio o Correio do Povo impresso e depois migro pra cá, ver as atualizações da madrugada e do amanhecer. O Correio é um dos melhores portais do país para quem gosta de notícias: sempre atual, direto, claro, limpo e fácil de navegar. Daí fiquei surpreso com a notícia de que a Playboy trocará a nudez pela sensualidade. Surpreso e contente, aliás. E não por ser um cara pudico ou moralista. Nada disso. Apenas saúdo toda mudança de ótica que podem induzir, nas mídias, a uma nova onda de comportamentos mais saudáveis.
Fiquei pensando sobre o que realmente quis dizer o chefe executivo da Playboy Enterprises, Scott Flanders. Talvez a internet, com sua facilidade do acesso a fotos muito mais ousadas do que as páginas da revista ofereciam, além da famigerada e incontrolável indústria da pornografia virtual, aliada até mesmo a uma forte mudança de padrões culturais e de comportamento, reduziram seu mercado a quase nada. Bela saída posar agora de bons moços. O que, enfim, pode oferecer um ganho ao público leitor: a verdadeira arte está na sensualidade, não na nudez que apenas explora a questão sexual.
Lembro de, adolescente, existir um muro a ser vencido para que tivéssemos acesso às revistas desse tipo. E era tudo o que a piazada queria. Os auge da audiência nos papos secretos dos recreios escolares e intervalos das peladas (de futebol, futebol!). Quem conseguia um exemplar era um herói. Feito para quem tinha irmão, primo ou amigo mais velho, ou era parceirão do tio da banca e comprava a revista nalgum horário sem testemunhas. A coisa era séria, mas a curiosidade natural dos jovens dava seu jeitinho. Jeitinho mundial, não brasileiro. Da segunda metade da década de 80, minhas lembranças ainda trazem penteados e roupas ridículas (o que eram aquelas calças lá no umbigo?), rock brazuca na veia, com belas letras de protesto, e muita curiosidade sexual temperada por edições "contrabandeadas", entre os amigos, de revistas adultas. Não havia a internet e seus vídeos sem controle.
Mas também lembro que abrir uma playboy trazia uma expectativa antes e mil frustrações depois. A sensualidade não era o forte da revista, mesmo em suas produções luxuosas. A vulgaridade sim. Não que eu ache que a nudez deva ser castigada, nada disso: até penso que o nu, masculino ou feminino, é muito mais belo que a maioria dos gestos e poses que se faz neste país cobertos de terno e gravata ou outras roupas pomposas. Mas, se a gente pensar bem, a indução, a fantasia, o segredo funciona muito melhor no imaginário do que o explícito. A Playboy era uma revista bem melhor antes de abrir. Depois, perdia a graça. Salvava-se por algumas matérias interessantes. Eu achava bem mais bacana os anúncios de lingerie de uma revista, de produtos femininos, que minha tia oferecia toda semana lá em casa, para a minha mãe. Eram mais sedutores.
A última Playboy que comprei (já era adulto e podia comprar) foi a da Elba Ramalho, em 89. Que eu nem achava uma mulher bonita, mas adorava sua voz. Fiquei um tempo sem ouvir "Vem ficar comigo" (Vem brincar comigo/Vem cuidar de mim/Só teu paraíso é quem me faz viver feliz) que eu gostava tanto, e me fazia pensar numa namorada que eu não podia ter, porque ela não queria. Sua nudez explícita me ceifou o encanto. Sei lá, na minha mente jovem ela tinha virado apenas mais uma mulher vulgar, disposta a abrir as pernas por grana e nada além. E eu podia estar errado: era jovem, jovens pode pensar o que quiserem, até o que não tem nada a ver. Depois a vida ensina. Mas no mesmo ano, se não me engano, veio a tal edição com a fogueteira do Maracanã. Nunca mais abri uma playboy na vida. E os contos eróticos e bem escritos de Ele & Ela eram muito mais legais de ler. Quem lembra, sabe que eles davam um banho literário em 50 Tons de Cinza. E eram escritos por leitores.
Bom, mas no resumo da história toda, a nudez e a sensualidade sempre fizeram e farão parte da história sexual da humanidade. Só que o vulgar, francamente, é dispensável. Há coisas que descobrir entre "quatro paredes" é muito mais interessante. A Playboy, hoje, dá um passo a frente. Verdade que é só para sobreviver, não por qualquer questão ética ou de gosto, já que usou e abusou da mulher-objeto por décadas. E para lucrar muito. Talvez a revista tenha colaborado, gostado e se aproveitado além da conta dessa cultura e conceito de uma sociedade machista que, ainda hoje, induz à abominável e descontrolada violência de gênero. Conceitos que passam longe da sexualidade natural que temos conosco. Mas, que bom. E nem é pela nudez em si. Mas por respeito às mulheres, cada vez mais vítimas, cada vez mais precisando serem respeitadas.
Sempre é bom lembrar que a Lei Maria da Penha é muito mais papel do que ação pública de fato. Que proteção de verdade não há, as estruturas públicas são pífias, é muito lero-lero e papel de enfeite na parede, com raras e isoladas ações de verdade. Uma destas ações é enfrentar, de forma veemente, e pra ontem, o conceito de mulher-objeto em todos os sentidos. Até nas propagandas. É o que ainda permite a certos homens acreditarem que têm a posse de suas mulheres. E aí... É o que se vê nas piores notícias policiais.
