Toda despedida de um comandante-geral, na Brigada Militar, é um capítulo importante que se fecha na história viva da corporação. Porém, a saída do Coronel PM Cláudio dos Santos Feoli carrega um “plus” nesse peso simbólico. Seu período à frente da instituição foi marcado por decisões que ficaram visíveis aos olhos da tropa e da sociedade: modernização de armas, viaturas e equipamentos, atualização de tecnologias e muito mais. Além da evolução para um fardamento mais tático e operacional, derrubando tabus antigos (como o boné branco, que resistia mais por costume que por razão). Ao mexer nisso, mostrou que tradição é fundamental, mas não sinônimo de imobilidade.
Houveram avanços menos vistosos, mas igualmente decisivos para seus integrantes. O ingresso tornou-se regular e os cursos internos passaram a obedecer uma lógica previsível e necessária. Como o curso de sargento, que deixou de ser uma incógnita crônica, chegando a ficar anos sem acontecer e corroendo expectativas e carreiras. Feoli liderou uma gestão que olhou para a formação e instrumentalização de quem vive e convive com os conflitos diários da sociedade. Olhou para o futuro. Isto o projetou além dos limites do Rio Grande do Sul, tornando-o referência nacional entre as lideranças institucionais das polícias brasileiras. E não por discursos fáceis, mas pela postura firme, coerente e sempre em defesa da instituição e de seus integrantes, inclusive nos momentos mais delicados, aliando equilíbrio e coragem com transparência e técnica.
Não escrevo movido pela amizade, ainda que ela exista. Construída lá atrás, na Academia de Polícia Militar, onde também convivemos com o Comandante-geral dos Bombeiros Militares do RS, Coronel Julimar Fortes. Com Fortes, pouco convivi após o curso, mesmo à época em que éramos uma só instituição. Mas mantemos contato e sua gentileza e fidalguia, inclusive como leitor atento do Correio do Povo, sempre me emocionam. Com Feoli, a amizade amadureceu no convívio diário como oficiais de front no 11º BPM dos anos 90 (eu poderia contar sobre um tiroteio em que ele me “resgatou” e outras aventuras) e foi, com certeza, o motivo por ele ter me confiado a Comunicação Social da BM, em 2022, com a missão de valorizar o trabalho da linha de frente e diminuir a distância cultural entre oficiais e praças.
Já veteranos, nas vezes em que saímos juntos em uma mesma viatura, nesse período que o assessorei, percebi o mesmo entusiamo e camaradagem lá do jovem aspira. O front era o seu chão. O bom combate, área dominada. Talvez ele não tenha conseguido fazer tudo o que pretendia ou sonhava quando aceitou o desafio de liderar a BM, mas entrega uma instituição forte, organizada e consciente do caminho que trilha rumo aos seus 200 anos. E, se bem o conheço, talvez tivesse vontade de ficar, ainda mais em dias de turbulência. Mas a lei, gostemos ou não, dá a ordem final para pendurar os coturnos aos 35 anos de serviço, como aconteceu comigo em 2025. Desafios, que dariam à tropa brigadiana mais satisfação e entusiasmo, prosseguirão. Ainda assim, ver uma imensa maioria satisfeita com seu comandante é algo raro e precioso. A Brigada Militar se despede de um líder. E segue em marcha, levando consigo o legado de um comando que fez história.
