Animais que precisam de ajuda e carinho. Com seus olhares puros, sua meiguice sem máscaras ou maquiagens. Um apelo inevitável aos corações generosos. Uma causa onde tantos militam em defesa da vida. E, claro, os pedidos de doações para que esta ajuda se concretize. Aparentemente, nada de novo, eis que tantos voluntários se mobilizam pela defesa animal, em grupos organizados ou iniciativas isoladas, no mundo todo. Na maior parte das vezes, justamente para combater os efeitos da maldade humana, que abandona, maltrata, explora. O problema é quando achegam denúncias, a polícia é acionada e, de repente, cai a cortina. Por trás, o que surge, o que se revela, é o mesmo mal que se pensava combater – ou até pior, pois se disfarçava de benevolência e caridade, aproveitando-se da boa fé de tantas pessoas.
A operação da Polícia Civil em uma cidade da região metropolitana, há alguns dias, talvez tenha descoberto um esquema bárbaro de crimes diversos, da execução inexplicada de animais que deveriam ser protegidos, ou tratados, ao mau uso do dinheiro arrecadado justamente em campanhas para preservação destas vidas: o que não foi feito, pois o bichinhos foram mortos. Exterminados. Descartados feito lixo. O cerne do golpe era o emocional das almas boas que ainda temos, felizmente, aos montes por aí: comover com a imagem dos animais, pedir dinheiro e tirar proveito disto. Mas, por favor, continuem ajudando quem faz isto de verdade, pois nada é barato e, mesmo com tantos veterinários voluntários ajudando os grupos que realmente se dedicam à causa animal, estes profissionais também têm famílias e direito ao seu ganha-pão, não se pode impor o uso e abuso de um profissional só porque ele tem bom coração.
O chamado “golpe do amor” usa a mesma lógica. Aproveita essa necessidade tão humana que temos de amarmos e sermos amados para criar ciladas, falsos perfis pessoais com histórias comoventes e, ao final, extorquir o máximo que der. É tão brutal quanto espancar, quando alguém ilude uma pessoa que apenas se permitiu sonhar e acreditar na palavra do outro. Os traficantes de drogas, conhecidos pela crueldade com que eliminam inimigos e devedores, também se valem desta lógica: usam a dor, a angústia, a dúvida, o desespero, principalmente de jovens, para vender seus falsos anestésicos, nem aí para as consequências nefastas que eles terão. Pensam apenas no seu lucro. Assim, também, são esses golpistas do amor. Meros mercenários do lucro fácil e sem escrúpulos. O alvo preferido? O amor. O que há de mais belo no sentir humano.
Há uma nova luz (ainda que meio fraca, precisamos admitir) legal: a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, da Câmara dos Deputados, aprovou projeto de lei que aumenta a pena do crime de estelionato caso o autor se valha de uma relação afetiva com a vítima. Vai pegar (se pegar, é Brasil, oras!) três a nove anos de cadeia. Já sobre o estelionato comum, crime que cresce vertiginosamente na era tecnológica, a Comissão de Segurança Pública do Senado quer aumentar a pena mínima de um para dois anos. Pouco. Muito pouco para algo tão desumano: usar o melhor, o mais belo da nossa essência, para nos transformar em vítimas. Mas, como disse Clarice Lispector, "Amar não é para os fracos. É para aqueles que, apesar de tudo, persistem”.
