Oscar Bessi

O assalto ao prefeito

O prenúncio da morte por conta de um gesto mal interpretado, ou do quanto de droga há no cérebro do criminoso, é um instante intenso demais

O jovem prefeito de Estância Velha vivenciou, esta semana, aquilo que a esmagadora maioria dos brasileiros é obrigada a experimentar em seu nada fácil cotidiano: o medo de morrer sob a mira de uma arma nervosa que exige teu celular (sempre), teu dinheiro, tuas coisas todas que estiverem à mão. Por incrível que pareça, o Rio Grande do Sul tem invertido essa lógica e, só nos últimos anos, o roubo a pedestre caiu quase que pela metade. O que significa muito. No país ainda morrem cerca de mil cidadãos por ano, vítimas de latrocínios. Dos milhares que ainda tombam frente a armas de fogo.

Um assalto nunca é uma situação simples de ser vivida. O prenúncio da morte por conta de um gesto mal interpretado, ou do quanto de droga há no cérebro do criminoso, é um instante intenso demais. E que deixa sequelas. Sim, é um momento de medo, e este medo faz parte da vida de estudantes, comerciários, profissionais liberais, professores e operários do nosso país. Até porque há uma permissividade legal, uma autorização nociva e institucionalizada na nossa cultura penal que incentiva aos criminosos seguirem vivendo deste jeito.

O prefeito gosta de caminhar, mas aquela, em específico, tinha um objetivo nobre: comprar um brigadeiro para levar ao filhinho de 4 anos. Um homem que lembra de comprar um doce para as suas crianças, na volta do trabalho, não merece, jamais, passar pelo que ele passou. Mas quem disse que bandido tem critério? E os assaltantes, oriundos da Região Metropolitana, haviam se mudado para a cidade fazia pouco tempo, disfarçados de trabalhadores da construção civil. Apenas para roubar. Fazer esses arrastões que espalham tristeza, violência e medo nas pessoas. Para sorte da comunidade, as forças de segurança, municipal e estaduais deram a pronta resposta costumeira. Prenderam toda a gangue. Dois criminosos, aliás, foram presos pessoalmente pelo Capitão Rafael Lincke, comandante da 4ª Companhia do 32° BPM, em Estância Velha. Eis um grande exemplo de oficial líder e comprometido com a sua função. Ao lado dos seus, além de gerenciar e organizar as ações, vai ao front e também resolve. Fantástico!

Mas aí acontecem aquelas coisas que nos chateiam. Um dos criminosos ficou em liberdade. Todos os presos tinham diversos antecedentes criminais, como roubo, tráfico de drogas e até tentativa de homicídio. Nem deviam estar livres para atacar quem quer que fosse. Menos mal que, pelo menos, o que não está preso ficou com tornozeleira. No fim das contas, sabemos que não é um inibidor. Nem cem por cento confiável. Até freia um pouco as iniciativas violentas e reincidências. Pouco. Enfim, melhor que nada.

Perdoem-me, sou cético. Mas o ceticismo pode ser apenas uma consequência dos muitos anos no policiamento. A gente só topa com o lado ruim das coisas, todo dia. E não é pouco. Agora, um ponto positivo da ocorrência noticiada: o prefeito divulgou o seu vídeo, sem medo. Ele é de uma geração que lida bem com as redes e entende o valor da influência digital. Seu exemplo é até alerta para comportamento preventivo na rua.

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