Reuni todos os alunos soldados da Escola da Brigada Militar que comando atualmente, em Montenegro, e terminei minha fala com palavras de incentivo e desejando sorte e sucesso a todos. Prometi que faríamos uma bela troca de experiências vividas e histórias das ruas quando todos retornassem. Percorri as quase três centenas de semblantes únicos, atentos, alguns ansiosos e ávidos pela nova experiência, outros ainda tentando decifrar a incógnita dos dias seguintes. Afinal, seria a primeira experiência de rua na carreira de todos.
Minhas turmas se preparavam para embarcar para Canoas e Alvorada, duas cidades fundamentais no contexto da segurança pública gaúcha. Duas cidades onde já trabalhei. As demais Escolas da BM, nesta grande operação intitulada “Batalhão Escola” que reúne cerca de 1.300 alunos dos três cursos de formação (oficiais e soldados) e habilitação (sargentos), atendem, ainda, a capital, a região central do estado e o Litoral, onde a tradicional Operação Golfinho está em andamento, como faz há décadas no veraneio dos gaúchos. Eles só retornam após as festas dos Navegantes.
Só aprende a fazer bem quem faz, e faz repetidas vezes, na busca da excelência. Só o treino torna um profissional qualificado. Essa experiência de rua oferece aos alunos soldados, principalmente, a chance de colocar em prática os conhecimentos recebidos, as técnicas, as providências de cada caso e, ainda, entender como a ciência da segurança pública tem seus fundamentos no emaranhado jurídico, na realidade social e no comportamento humano.
E, aos alunos oficiais e soldados alunos, que estudam para se tornarem oficiais e sargentos da corporação, a chance magnífica de entender a complexidade de gerenciar segurança pública. A necessidade de conhecer as comunidades, sua história, sua cultura, suas gentes, seus problemas, suas peculiaridades, suas lacunas, suas necessidades. E atender essas demandas gerenciando recursos materiais que nem sempre estão disponíveis sem o esforço dos comandantes, que precisam saber exatamente tudo o que precisam, a todo momento, com o que contam ou onde podem buscar. E, acima de tudo, gerenciando recursos humanos: seus soldados. A linha de frente. Os profissionais, mas acima de tudo pessoas. Que precisam estar motivadas, felizes, bem orientadas e bem recebidas no seu local de trabalho para darem um retorno à altura para os demais cidadãos que, deles, só esperam ajuda e acolhimento.
Estou nos meus últimos dias na ativa e jamais vou esquecer os olhares dos alunos, fardados e equipados, naquela tarde de calor insuportável desta semana. Acima de tudo, olhares decididos. E olhares de fé. A missão de servir e proteger não é simples, nem para quem comanda, nem para quem executa. Mas é uma missão extremamente gratificante. O Batalhão Escola não vai apenas deixar ainda mais preparados os policiais que cuidarão das vidas gaúchas logo ali, na próxima esquina do tempo, pelo fato de qualificarem como a prática de nossas ruas, múltiplas e complexas. Será mais. O Batalhão Escola será, para todos os seus integrantes, um divisor de águas definitivo nessa decisão de se entregar ao ofício de defender o outro - qualquer outro, sem a menor ideia de quem seja ele, e mesmo com o sacrifício da própria vida.
