Capítulo 5
“Tristeza. O abrigo da minha felicidade”.
Silêncio. Se eu tentasse a vida como poeta, morreria de fome. Sorri sem graça para a senhora ao meu lado, que fingiu não ouvir e seguia com cara de poucos amigos, mesmo que, além de secar seu ombro com o lenço, eu tenha pedido desculpas umas quatro ou cinco vezes.
Pensei ser desnecessário explicar ao Ladislau, o sujeito que, do outro lado da linha, recém me explicara ser empresário do ramos de transportes ou coisa parecida, que eu falava do meu bairro. Ouvi um suspiro impaciente e não mudei de ideia. Problema dele, se não entendeu. Não gostei do tom irônico ao perguntar onde me escondia. Eu não me escondo. Quem se esconde é porque deve. E eu até devo uns trocados no boteco do Arnildo, mas é coisa pequena. Não sou fora-da-lei. Apenas considero dispensável dizer onde moro, ou trabalho, o que é bem diferente de se esconder.
Ele finalmente murmurou um “ahn” que entendeu coisa nenhuma, mas depois de nova pausa, riu. Ufa. Caiu a ficha.
- Leão é o seu nome? - perguntou, num claro tom de alívio.
- Pode ser. Quem sabe.
Novo silêncio.
- Igual ao goleiro?
Deduzi que o meu novo cliente tinha mais de quarenta e cinco anos. Os sujeitos abaixo dessa faixa etária perguntavam se o meu nome era igual ao do treinador.
- Isso. Mas sou melhor que ele, estou invicto.
Ele riu agora sem entusiasmo.
- Pode me passar o endereço?
- Não.
Respondi de um soco e esperei a reação. O homem poderia ter me mandado longe, desligado o telefone e passado para o próximo anúncio que encontrou no Correio do Povo. Há uma penca de detetives particulares em Porto Alegre. Ele apenas suspirou outra vez e perguntou onde poderíamos nos encontrar. Pelo menos algumas coisas ele entendia rapidinho. Respondi que o aguardaria às 20h no Pedrini da Wenceslau.
- Gostei do senhor. Parece ser cuidadoso. - ele murmurou, satisfeito. Imagino que pela escolha do bar.
- É o meu trabalho. - respondi.
- Vai ver que o meu caso parece simples.
- Nunca são.
Nova risadinha.
- Mas o meu é. Nada além de um notebook que sumiu.
Tive vontade de dizer que era detetive, não mágico. No circo é que as coisas aparecem e desaparecem assim, puf!, sem qualquer esforço. No circo e nas contas públicas. Ele pareceu esperar um comentário meu. Que não veio.
- Uma última pergunta. - ele tinha a voz mais aliviada.
- Manda.
- O senhor gosta de praia?
Ih. Pegadinha? Relembrei alguns dissabores do verão anterior.
- Desde que por lá não morra, tudo bem. - eu disse, por fim.
Ele riu outra vez. Era bem-humorado, o meu novo cliente.
- De fato, deve ser desagradável morrer na praia.
Gargalhadas do outro lado. Eu pensei em entrar na onda e arriscar uma piada futebolística, mas desisti. Futebol é coisa séria. E eu já havia perdido clientes por brincadeiras com a dupla Grenal. De qualquer sorte, o tom daquela piada, agora, me pareceu meio macabro. Humor negro? Ou o sinal do celular que estava ruim? Outra vez era a hora exata para desistir. A senhora desceu, depois de olhar o Dinosul pela janela. Que há muitos anos não se chama mais Dinosul, mas tenho certeza que ela, como eu e outros tantos moradores antigos, ainda chama aquele supermercado pelo nome que levou consigo até os anos 80. Pensei em descer também e comprar umas bebidas para mais tarde. Lembrei do IPTU e da pescaria do Simão. E não só não desliguei, como combinei com Ladislau o encontro, nos descrevendo mutuamente e dando detalhes da roupa que vestiríamos. Ele se despediu, agradecido.
Morrer na praia. Hum. Gremista ou colorado, O Ladislau?
* * *
A seguir, perguntas para o próximo capítulo:
1) Qual o nome atual do antigo mercado Dinosul?
2) Leitores da coluna lembram para que time de futebol gaúcho torce o Simão?
E-mail: detetiveleao@correiodopovo.com.br
Amanhã, não perca o SEXTO capítulo de…

