Oscar Bessi

O chato e o Cunha, o Inter, o Estado Islâmico e etc.

O chato

 

Coisa mais chata é ter que se livrar de um chato. Dureza. Estamos na rua, com pressa, não temos para onde fugir e ele aparece. Sorrisão anunciando que fomos premiados. Rá!, é ele mesmo. Mala e cuia. Muito mais mala do que cuia. Falando do que ninguém aguenta mais ouvir, mas, ô, precisa do seu veredicto. Importante. A gente vai ficar pasmo ao saber e ele faz questão de nos contar. Aos gritos. E pegando no braço. Que chato é assim, já vai pegando no braço. Nada de só a mão ou a paciência. Chato é chato. O tempo é todo dele. O tempo, o vento e a vida alheia.

Dureza.

A gente disfarça, pigarreia, resmunga microssílabos. Ah, hum, ô. É. Faz cara de quem comeu rabanete com mumu. Nada. O sujeito fica ali, sem se flagrar. Enfim. Chato, que é chato, ou nem sonha que é, ou faz questão de chatear.

Alguém lançou, há algum tempo, uma página na internet elencando dicas de como se livrar deles. Dos chatos. Tudo inútil. Não é bem assim, para se livrar deles.  Chato é que nem coceira. Se for remediar, piora.

Fingir que atende o celular, por exemplo. Chato nem dá bola e, mais, conversa junto com o telefone. Para ele temos uns quatro ou cinco ouvidos. E atenção múltipla. Se facilitar, diz até alô para a gente. Ou tenta um triálogo.

- É o Zé? Hein? Pergunta do Zé, diz que eu tô esperando aquela costela. Aquela costela, Zé!

Não sabemos o que fazer. Jamais se imagina que alguém possa querer conversar ao mesmo tempo com a gente e com o nosso telefone. Então ele grita, perto do celular, que está perto do ouvido, que está justamente na cabeça que já começa a doer, ô Zé!, cadê minha costela? Grita, grita mesmo. E solta aquela gargalhada. Que todo chato se acha um Jô Soares. Engraçadíssimo, genial, o ó do borogodó. E é um privilégio estarmos com ele, temos que reconhecer.

Fingir que não viu e seguir reto, só se existisse a invisibilidade. Que ele sempre vê. E vem. Nem adianta cumprimentá-lo sem parar de caminhar. Ele nos segura ou, pior, vai junto. Aí não tem escapatória. Mesmo indo para o lado oposto, com hora marcada e atrasado, ele vai. É capaz de ficar na fila do banco com a gente. Teorizando. Gritando. E agarrando no braço. Aí, só se ele achar um novo alvo. E olhe lá, que ele pode voltar, e esperar a gente ser atendido para dar pitaco sobre aplicações, ou comparar com a conta que ele tem lá num outro banco.

Tentei, dia desses, a técnica da gripe A. O chato veio e nem deixei que me cumprimentasse. Tossi. Perguntei se ele sabia onde comprar máscara. Essa gripe, eu disse, um perigo. Só de conversar, pegou. Pensei: agora ele sai correndo.

Pff.

O tipo soltou uma gargalhada. Gritou, para a cidade inteira ouvir, que ele era um sujeito forte. Imune. Sem frescura. Criado a polenta e mandioca braba, agarrava bugio pelo cangote e tinha cartão de detetive por correspondência. Deu risada, tapa nas costas, olhou ao redor para se certificar de que chamava a atenção. Aí, agarrou o meu braço. Gritou no meu ouvido. E discursou sobre Estado Islâmico, Eduardo Cunha e com quantos espirros se faz um tamiflu. Só faltou filosofar sobre o Inter jogando fora de casa.

Que chato é assim. Entende de tudo. Até o que ninguém consegue entender.