O futebol é nosso. É do brasileiro. O futebol é gingado, alegre, apaixonado e passional. Não fomos nós que o inventamos, nem que o transformamos em esporte cheio de regrinhas, mas nós o adotamos. A esmagadora maioria dos nossos tem seu time do coração. Nossos jovens gostam de bater uma bolinha (já foi mais, já houve mais campinho para peladas, já se teve mais espaço), nossos pais de família, nossos funcionários de empresa adoram confraternizar e jogar o estresse do trabalho para escanteio com um futibas e salchipão. Nossas mulheres gostam de jogar bola, apesar do preconceito oficial das federações, que quase as ignoram.
E o futebol pode ser violento. Ou não.
Futebol tem o contato físico, o atrito, o choque. Normal. O que aconteceu com o jogador do Juventude e o goleiro do Inter, no Jaconi, é do futebol. Um acidente. Uma lástima.
Agora, o cotovelaço de William no Grenal não é do futebol. E posso dizer isto com tranquilidade de isenção porque o meu segundo time do coração é o Colorado. O primeiro, claro, é o Xavante. Então não sou um gremista acusando ninguém. Sou apenas um cara que quer falar da violência desnecessária.
Que bobagem, eu disse acima. Ora, violência desnecessária. E por acaso existe alguma violência necessária?
Existe. Para alguns, existe. Há quem diga que a falta violenta é do jogo. E não precisamos procurar muito, basta uma conversa rápida com nossos amigos, basta puxar da memória entrevistas com técnicos, jogadores e cartolas famosos. Até comentaristas esportivos. Mas de onde vem isso, essa ideia equivocada?
De berço. Da educação. Como tudo na vida.
Vou contar um exemplo: meu guri do meio, o Gê, era apaixonado por futebol. Fez o pai aqui cortar cabelo dele no estilo moicano a la Neymar e etc. Adorava também o Messi e outros craques, sabia a biografia deles, via partidas comigo (adoro assistir partidas de futebol!), conversávamos sobre. Jogávamos juntos todos os dias, até que o matriculei numa escolinha de futebol. Ele tinha nove anos. Ora, todos sabem que moro no interior. Guri do interior entra pra escolinha mais para ter uma atividade física, algo extra, fora do colégio, do que com objetivo de ser jogador profissional um dia. Sonhar, certo, todos sonham com um milagre do olheiro que o descobrirá e etc. Mas o objetivo é esporte, saúde e disciplina. E o projeto onde matriculei meu guri era fantástico, professores maravilhosos.
Aí, nos treinos deles, pais ao meu lado assistindo começavam: "derruba! vai na canela dele! quebra no meio!".
Fiquei apavorado. Tentei conversar com os caras e me mandaram longe, "isso aqui é futebol, ô escritor". E veio aquela velha insinuação de que se meu filho era um "maricas" e não podia com aquilo, devia partir pra outra.
Discordo.
Em torneios, então, o que os pais mandavam suas crianças fazer, em termos de violência contra o adversário, era chocante. E os xingamentos contra os pequenos do time adversário? Numa ferocidade, numa verborragia ofensiva que dava nojo. E medo. Uma vez veio uma categoria de base do Inter à minha cidade, jogar contra o time daqui. As ofensas que umas mães coloradas gritavam aos meninos (da idade de seus filhos, crianças!) era de cair o queixo.
E as crianças crescem assim, neste meio. Achando que "é do futebol" agredir, ofender.
Meu guri desistiu. E estava ficando bom de bola, achei até que sairia da miséria com um jogador famoso. Mas ele é do tipo que protege plantas e animais, então a agressividade humana o afastou. Perdeu o gosto pelo futebol. Hoje, joga comigo, bate uma bolinha, mas em jogo mesmo não entra mais. Tem horror a brigas. E eu tenho o maior orgulho dele por isso.
Mas é assim: enquanto nós, adultos e apaixonados pelo futebol, dissermos aos pequenos que certas coisas são normais e aceitáveis, os lances como o de William seguirão acontecendo. Porque futebol é paixão e, na paixão, a gente perde o controle das ações. Mas agredir é algo que nossa educação pode bloquear. Como a gente não sai estuprando por aí quando tomado de desejo por alguém, como a maioria de nós não sai distribuindo socos e pontapés e ofensas horríveis por tantas coisas que mexem e revolucionam com o nosso íntimo. Porque somos, sim, um liquidificador de emoções. Mas ser capaz ou não de agredir, sabendo o quanto isto fará mal ao outro, é a nossa educação, a nossa formação humana que permite ou bloqueia.
