Oscar Bessi

O estupro coletivo de todos nós

 

O estupro coletivo de uma adolescente no Rio chocou. Abriu os olhos de uns, atiçou o lado sombrio de outros e escancarou as velhas hipocrisias. Um desses filósofos da dor alheia, que amam seus palpites de ocasião tão distantes da realidade, disse que não importa avaliar onde a menina estava, ou o horário e o que ela foi fazer lá. Apenas a violência sexual em si. Bah! Fico impressionado com essa gente que prega o “não se importar” como regra. Onde anda uma menina, que ainda não sabe o mundo torpe que nós lhe oferecemos, importa sim! Primeiro aos pais, por dever moral e afetivo, depois à sociedade, por lógica humanista. Deveria ser esta a preocupação primeira sempre: saber onde os nossos filhos andam, com quem andam e o que estão fazendo. Importar-se é amar. É cuidar, conduzir e proteger. Educar. O contrário disso é oferecer às feras.

Feras. O cenário da tragédia é previsível e propício: envolvimento com drogas, facções de tráfico, bailes funk. Nada contra qualquer estilo musical. Mas nosso país conseguiu considerar “patrimônio cultural” um tipo de música, e festas, onde meninas (“novinhas”, como eles chamam as menores de idade - nossas filhas! - antes de violentá-las física ou moralmente) são oferecidas como carne no espeto, humilhadas nas letras das canções e nos palcos dos bailes, onde práticas como a “tábua” são meros estupros coletivos, incentivado e instigado por muitos, sem qualquer proteção de saúde. A ponto de as meninas acreditarem que aquilo é bom e dá status. Vão dizer que não sabem disso? Sim, sabem. Mas permitir dá voto.

Eis o maior problema. Essa cultura sem controle que massacra a mulher brasileira e violenta nossas gerações futuras tem adeptos, números e cifras cada vez mais interessantes aos vampiros da política brasileira. Temos meio milhão de estupros no país todo ano, sendo a maioria dessas vítimas crianças e adolescentes. E as políticas públicas, onde estão? E os discursos rebuscados em defesa de direitos? Esses que torram fortunas promovendo encontros de nhenhenhém que só servem pra mídia, mas não fazem nada de concreto pelas pessoas, são tão abusadores quanto os trinta bandidos cariocas, que massacraram a menina e ainda postaram suas feridas na internet, entre risos e deboches. Quem usa e fomenta estas dores para alavancar interesses eleitoreiros, quem gosta do descontrole e do caos para alimentar sua rede de egoísmo e ganância, também gostam é que ninguém se importe. Assim, fingem “ter bandeira” para fazer politicalha torpe. Enquanto a educação, a verdadeira educação que começa na família que ama e vai à escola bem aparelhada, sucumbe. E aí são vários a violentar não apenas essas pobres meninas, mas todos nós. Estupram nossa dignidade e futuro. Nossa esperança. E também debocham nas redes sociais.