Oscar Bessi

O estupro do eleitor

O deputado Jardel, ao conceder entrevista exclusiva ao Correio do Povo, usou um termo pitoresco. "Fui estuprado", declarou o parlamentar. O autor do "ato" seria o Ministério Público. É um direito de Jardel, se defender, se sentir mal com o que aconteceu. E definir como quiser os seus sentimentos. Isto faz parte da democracia. Por outro lado, é um péssimo exemplo num país que precisa, acima de tudo, retomar um pouco do respeito às suas instituições - algumas desgastadas pela falta de consideração dos outros, outras desgastadas por si mesmas. E penso que usar a metáfora da violência sexual, um dos grandes problemas deste país, não foi uma escolha feliz. É livre e legal a defesa. Mas esta não ficou bem. Bola fora, deputado. Gol contra.

Agora, vamos pensar no eleitor. Pobre eleitor. Afora os aumentos constantes de tudo que o cerca e possa ser aumentado - gasolina, luz, gás, serviços, alimentos, impostos -, ainda é obrigado a ouvir uma enxurrada de ameaças que falam em perdas de direitos e conquistas. Cortes. Serviços públicos essenciais boicotados, prejudicados, sucateados. Programas aniquilados. Governos desnorteados olhando, sem agir, uma macabra banda passar. O judiado e atônito eleitor se pergunta, então: mas por que raios eu sou obrigado a me virar do avesso, todo santo dia, para sustentar tudo isto?

Para completar o quadro da dor, deputados e senadores, empresários e mídias mergulhados em suspeitas. De todo tipo. Sempre tendo o dinheiro público - que nunca é pouco e sempre é nosso - como centro. O que falta aqui, no cotidiano dos sobreviventes, sobra lá,  onde o excesso usa, abusa e zomba da plebe. E se diverte.

Frustrante. Irritante.

Tudo bem se o deputado Jardel se sente estuprado. Mas, então, o que sobra para nós?