Oscar Bessi

O fim da Jornada e o crime em sonhos juvenis

 

A foto encontrada em Cachoeirinha, no celular de um dos adolescentes que portavam drogas e simulacros de pistola e metralhadora - certamente usadas em assaltos -, chocou pelo absurdo da cena. Em pose que imita as execuções midiáticas gravadas pelos terroristas do Estado Islâmico (EI), um dos garotos aponta a arma para a cabeça da vítima: policial militar. Simulam sua execução. Este (que dizem ser outro amigo), está completa e corretamente fardado, de joelhos, cabeça baixa, as mãos para trás, rendido. Usa capa de colete, cinto e tudo. O revólver de um dos adolescentes aponta para a cabeça do policial ajoelhado e seu boné branco, com brasão da BM. Na farda, a insígnia de soldado e a bandeira do RS. Outro garoto veste a jaqueta de couro usada pelos PM no inverno, aberta e com as golas levantadas, em tom de deboche. Num olhar mais atento, a foto fala. E nos diz frases tão violentas quanto tristes.

Há que se ir além da afronta institucional, a um Estado inteiro e sua perspectiva de sociedade organizada e livre, à cidadania e suas melhores garantias e conceitos, à falência do bom exemplo. Quando adolescentes mergulhados no mundo do crime, das drogas e da violência deixam claro que o seu sonho juvenil é executar, de forma fria e covarde, feito terroristas, um agente público pago pelos impostos de seus familiares e amigos para protegê-los, algo vai mal. E muito mal. Lembram aquele jogo com imagens para encontrar sete erros? Esta traz milhares. A brutalidade se apossa de mentes ainda em formação. Uma falha histórica, intencional e imperdoável de todo os poderes públicos para com seu povo. É a falta de credibilidade em qualquer outro caminho que não o da barbárie. Ela reflete, sob luzes sombrias, o caleidoscópio assanhado do caos.

E se o ódio encontra amparo, reconhecimento e faz escola, é porque o terreno lhe anda fértil. Entretanto, prefiro acreditar que tudo é reversível. Falta é vontade para reverter. Não formas. Como o descaso e desinteresse de quem tem poder (ou capital) para mudar isto, mas faz o mesmo com a Jornada Literária de Passo Fundo: põe de joelhos, debocha, executa. Dá de ombros ao seu fim como se ela fosse nada e mostra que quem manda é o interesse escuso, a ausência educacional e de valores humanos. O breu. Ignora a história e a batalha de Tânia Rösing com seus pensares, com seus escritores e livros, por um oceano de crianças e adolescentes - e adultos! - a ter outro olhar sobre o mundo que não o da desesperança. Lamentável. É refletir sobre isto e voltar à foto de Cachoeirinha. Dá para ver, sem lupa, quantos recados tristes ela nos envia.