Oscar Bessi

O fim da vingança

O ódio, ao ser desencadeado, gera uma cadeia de ações e reações difícil de ser interrompida. Em avalanche, engole novas vítimas e aliados com voracidade. Os linchamentos dos últimos dias chocaram a opinião pública, mas, com o perdão da petulância, eram previsíveis e avisei aqui, na coluna do nosso bom e velho Correio do Povo, há quatro anos. O sistema é frágil, as leis são só papéis, a burocracia é infinita, os poderes públicos planam em descrédito entre maus exemplos e a distância entre seus atos e o povo, as estatísticas são falsas pela desistência de soluções oficiais, a impunidade parece uma enchente que nunca baixa e os abutres ainda inflam o medo para engordar. Há óbvio descontentamento, tensão. Quando a gota decide vazar o copo, em nossa cultura histórica de querer vingança, é enxurrada, grito que dói. E dói no mais fraco. Sempre.

Para frear esse tsunami de ódio, surge a Justiça Restaurativa. O clássico humano "peraí, vamos conversar". Autor e vítima de casos de violência indo além do fato, à alma. Com o Círculo Restaurativo - encontro entre envolvidos no conflito, familiares, amigos e comunidade em três etapas: pré-círculo (preparação junto aos participantes), círculo (encontro) e pós-círculo (acompanhamento) - não quer chegar ao final com o dedo em riste a apontar culpados, ou exigir perdão e reconciliação. Mas fazer entender que todas as nossas ações nos afetam e afetam ao próximo, então somos responsáveis por seus efeitos. Isto é educação. Pura e simples. Esta maravilha que a racionalidade oferece e nos torna humanos. Mas que irrita e apavora radicais, defensores da vingança a pau e fogo na sua ira estudada, lucrativa e patrocinada. Ou só magoada (e aí até se entende, mas esses são abertos ao diálogo).

A prática vem da Nova Zelândia, anos 70, para resolver conflitos regionais. O professor norte-americano Howard Zehr, um dos pioneiros deste novo sistema de Justiça, disse que nos EUA se punia muito os jovens, mas sem ajudá-los a entender a dimensão de seus atos, a assumir responsabilidade por eles. Exemplo maravilhoso é colombiano: na violentíssima Bogotá, a Justiça Restaurativa reduziu em mais de 30% os homicídios. Claro, há outros fatores. Medellín passou a investir 45% do orçamento público em educação e cultura, como as megabibliotecas abertas à noite nas periferias. Nada funciona sozinho. Aí entra a fase fundamental do processo: o acompanhamento. Um problema no Brasil. Depende de interesse, seriedade e comprometimento das redes, vontade de todos os indivíduos em mudar comportamentos e construir outro futuro. Políticas públicas sérias, com educação, oportunidades e bons exemplos. Parar a fábrica de bandidos e violências. Não é sonho, não. É possibilidade.